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por Vera Magalhães e Marcelo de Moraes

Da Vera: Um Senado ‘Penélope’

Vera Magalhães

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Um dos meus episódios preferidos da Mitologia Grega é o de Penélope, mulher de Ulisses, que durante dez anos aguardou a volta do amado da Guerra de Tróia –a jornada de volta do guerreiro é o tema da Odisseia, de Homero, de tão épica. Naquelas circunstâncias, a ideia de uma mulher que, pressionada a se casar de novo, prometeu que o faria quando acabasse de tecer um sudário, que diligentemente costurava de dia e desfazia à noite, é a demonstração maior da resiliência do amor.

Quando a prática de fazer num dia e desfazer em seguida se aplica à política, no entanto, temos não uma bela história de amor, mas a razão de uma das chagas brasileiras: a falta de continuidade administrativa, legal, judicial. O Senado deu uma de Penélope sem a paixão nem a coragem ao usar a PEC Paralela para amenizar as regras da nova Previdência que acabara de aprovar na reforma recém-promulgada.

Tais vícios da política brasileira explicam por que investidores não confiam em se lançar em empreitadas como explorar campos de petróleo ou investir em infra-estrutura no Brasil. Nem bem o País comemorava o avanço que significou a reforma, os mesmos parlamentares que a aprovaram dão uma demonstração de que a coragem que sobrava à personagem grega lhes falta na hora de pensar num ajuste fiscal consistente, de longo prazo e sem populismos.