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por Vera Magalhães e Marcelo de Moraes

Da Vera: vídeo pode ajudar Bolsonaro com seu público, mas agrava crise institucional

Vera Magalhães

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A longa e destemperada fala de Jair Bolsonaro na reunião ministerial de 22 de abril, exibida em rede nacional graças à decisão do ministro Celso de Mello de liberar a divulgação do vídeo praticamente na íntegra, pode até ajudar a melhorar a imagem do presidente junto ao seu público, mas agrava em muitos tons a crise institucional entre os Poderes.

O presidente Jair Bolsonaro durante a reunião ministerial do dia 22 de abri

O presidente Jair Bolsonaro durante a reunião ministerial do dia 22 de abril Foto: Marcos Corrêa/PR

Além disso, expõe muitos ministros, mostrando que são passivos diante da determinação expressa de Bolsonaro de intervir em todas as pastas para defender os interesses próprios e da sua família e a ordem unida para que todos façam o enfrentamento com os Poderes, com governadores e prefeitos e com a imprensa para defender politicamente o governo.

Outra evidência grave que salta do vídeo é o projeto de Bolsonaro de armar a população de forma indiscriminada, e a associação desse projeto com uma ideia de que o povo “armado não será escravizado”. Bolsonaro diz no vídeo que se o povo estivesse armado resistiria a decisões como as tomadas por alguns prefeitos para prender quem desobedece as regras de isolamento social. “Vamos soltar essa portaria porque eu quero dar um recado para esses bostas”, diz o presidente na reunião.

A ajuda para a imagem de Bolsonaro junto ao público bolsonarista mais radical é dada pelas falas de Bolsonaro demonstrando preocupação com o povo, com o desemprego, com a fome, mas sempre em contraposição com a recomendação das autoridades sanitárias e médicas do Brasil e internacionais de que é necessário o isolamento social e a paralisação da economia para fazer frente à disseminação do novo coronavírus.

O uso de palavrões, o tom indignado, a crítica algo paranóica à esquerda, a defesa do direito de ir e vir e a disposição de ir na ponta são trechos que fornecem adubo para arar o terreno bolsonarista que anda bastante desgastado em razão da pandemia de covid-19, crise econômica e sucessivas ações tresloucadas do presidnente.

Mas esse eventual ganho de popularidade trazido pelas bravatas do vídeo não deve ser suficiente para salvar a popularidade de Bolsonaro diante do agravamento diário da pandemia e da insuficiência técnica do governo para fazer frente a ele.

E a crise institucional ganha muitos graus, pois nas suas falas Bolsonaro:

  • afronta o Supremo Tribunal Federal
  • escancara a intenção de interferir na Polícia Federal e nos demais serviços de inteligência, que critica por não informarem-no corretamente
  • xinga governadores do Rio e de São Paulo e o prefeito de Manaus
  • fala em armar a população para que resista a prefeitos e governadores
  • diz que não vai aceitar se tentarem impedi-lo

A reação do Congresso, do STF e dos demais mandatários não só ao conteúdo da reunião ministerial, que mostra total desapreço não só do presidente, mas de muitos ministros, à harmonia entre os Poderes, vai mostrar o poder de estrago das imagens.

A nota do general Augusto Heleno ameaçando uma reação não-constitucional caso Celso de Mello autorize a apreensão do celular de Bolsonaro apenas joga mais combustível nessa fogueira em que arde a institucionalidade do Brasil.

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