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por Vera Magalhães e Marcelo de Moraes

Da Vera: vítimas são esquecidas na ‘festa da vitória’ de Bolsonaro

Vera Magalhães

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As 115 mil vítimas da covid-19 foram esquecidas no discurso de Jair Bolsonaro no extemporâneo e coalhado de desinformações evento batizado de Encontro Brasil Vencendo a Covid, realizado na manhã desta segunda-feira como uma celebração no Palácio do Planalto.

O presidente Jair Bolsonaro em solenidade no Planalto Foto: Reprodução

Bolsonaro quis dar ares de mobilização espontânea de médicos para o ato. Uma entusiasmada médica defensora da cloroquina e hidroxicloroquina nas fases iniciais da covid-19 discursou conclamando a “Nação” (forma como as igrejas evangélicas se referem aos fiéis em cultos) “não tenha medo” de aceitar a nossa “velha e querida” hidroxicloroquina. E diz que ela foi “quase profética” ao falar do remédio em vídeo que chamou a atenção de Bolsonaro.

Foi ela, a doutora Raíssa Oliveira, a única a demonstrar respeito pelas vítimas do novo coronavírus, ao propor um minuto de silêncio pelos mortos, logo antes da fala de Bolsonaro.

Mas o presidente não chegou a se referir aos mortos, nem aos familiares que perderam entes queridos. O Brasil é o segundo País do globo com mais mortos, embora sejamos só a sexta maior população.

O presidente preferiu saudar a si mesmo e à cloroquina e criar uma teoria da conspiração na qual acusou o ex-ministro Luiz Henrique Mandetta de ter sido um lobista de universidades privadas e ter boicotado o protocolo com hidroxicloroquina por razões políticas.

Também disse que foi o ex-ministro que influenciou o Supremo Tribunal Federal a “alijá-lo” de qualquer decisão sobre o combate à pandemia que não fosse dar dinheiro. O que é uma dupla mentira: nem o ministro teve peso na decisão do STF, tomada em cima de questionamentos ao tribunal a uma medida provisória, e nem ela, a decisão, o alijou de responsabilidades no enfrentamento da pandemia, apenas o impediu de boicotar ações de governadores e prefeitos, como queria fazer.

O presidente mente reiteradamente a respeito de uma decisão tomada pelo plenário do STF e os ministros da Corte não se dignam a corrigi-lo.

Bolsonaro se emocionou, sim. Mas não a falar em quem morreu ou perdeu alguém para a pandemia, mas ao lembrar a facada que ele mesmo recebeu em “meia dúzia de setembro de dois mil e dezoito”, como falou. Depois de se referir ao “milagre” que salvou sua vida e agradecer aos médicos, lembrou também de quando foi condecorado por salvar a vida de um aspirante do Exército aos 23 anos. O colega havia caído num buraco de 2,5 metros, e graças ao seu porte atlético, como disse, Bolsonaro o resgatou.

“Falei do meu histórico de atleta, e a imprensa vai pro deboche. Mas quando pega num bundão de vocês (jornalistas), que só sabem fazer maldade, usar a caneta para fazer maldades, a chance de sobreviver é muito menor que a minha. E quem falou ‘gripezinha’ foi o Dráuzio Varella”, afirmou, em tom exaltado.

Ele mesmo reconheceu que a eficácia de cloroquina não tem comprovação científica. “Eu sei, ora bolas.” Tentou dizer que o protocolo do Ministério da Saúde para seu uso no SUS não é um protocolo, mas uma “recomendação”. E usou uma parábola pueril para explicar por que o uso seria justificável. Disse que na Guerra da Coreia, ou do Pacífico, como corrigiu, um soldado precisava de uma transfusão de sangue, mas não havia mais disponível. Aí, narrou Bolsonaro, ele teve água de coco injetada nas veias, e sobreviveu.

A cloroquina, filosofou, seria equivalente à água de coco. Pronto: eis uma afirmação do presidente num evento com médicos que não pode ser refutada.

 

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