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por Vera Magalhães e Marcelo de Moraes

Da Vera: Volta às aulas ‘opcional’ é lavar as mãos

Vera Magalhães

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O governo de São Paulo deve anunciar uma medida (medida?) que vai agravar a disparidade entre escolas públicas e privadas e acentuar também a desigualdade no ensino entre regiões do Estado. Criou, como informou em primeira mão a repórter especial do Estadão Renata Cafardo, a esdrúxula categoria de volta às aulas “opcional”, em que capitula diante da pressão das escolas particulares pela volta o mais rápido possível, ao mesmo tempo em que joga a toalha na incapacidade de Estado e prefeituras proverem o retorno dos alunos da rede pública, aqueles que já sofrem com várias limitações, às salas de aula em segurança.

O retorno estava previsto para 8 de setembro Foto: Estadão

Pouco ou nada foi feito por muitos municípios para garantir a continuidade do aprendizado nesses cinco meses de quarentena, e isso não só nem principalmente em São Paulo. A descentralização de decisões na educação, se tem vantagens óbvias, num momento de poucas certezas científicas como uma pandemia deixa os cidadãos à mercê da falta de protocolos claros e equânimes.

O auge dessa distorção é essa decisão a ser anunciada hoje pelo governo João Doria, em que a ideia de volta às aulas presenciais é jogada para outubro, com a possibilidade de escolas voltarem antes se assim desejarem.

O “cada um por si” transformado em política pública significa o governo admitir que não sabe o que fazer, e está num beco sem saída diante de um problema complexo, que desafia múltiplas áreas, uma vez que afeta a saúde — pela possibilidade de alastramento ainda maior da doença a partir do retorno das crianças às escolas e seu contato com familiares, exposição ao transporte público etc. — a própria educação e a economia, entre outras.

Nem a Organização Mundial de Saúde tem respostas definitivas sobre o melhor momento de voltar, mas nesta quinta-feira o órgão soltou um comunicado dizendo o óvbio: retomar as aulas presenciais em lugares que ainda não controlaram a pandemia pode piorar o quadro.

O Brasil e São Paulo estão longe de ter controlado a pandemia. Os seguidos anúncios em tom otimista de Doria e sua equipe para reduções residuais no número de internações e mortes, além dos sucessivos afrouxamentos dos próprios critérios de retomada estipulados e depois rabiscados do Plano São Paulo evidenciam um afã por reabrir o Estado e a capital quando o vírus ainda campeia livre, leve e solto. A cidade de São Paulo ultrapassou esta semana a funesta marca de 10 mil mortos, o que equivale a 10% do total de óbitos nacional. Como resposta, anunciou a reabertura de bares! Não, não faz o menor sentido.

Com a volta às aulas daquelas escolas que, à base de altas mensalidades, puderam investir em sistemas de segurança sanitária e garantir a alternância de alunos em casa e em sala, vai se criar um novo patamar de privilégio em meio a um momento que vai sacrificar o aprendizado de várias gerações em todo o Brasil.

Enquanto isso, na rede pública paulistana, por exemplo, os alunos (alguns) estão recebendo só agora o segundo volume de uma apostila, e por ora isso tem sido tudo para mitigar cinco meses de interrupção das aulas presenciais. Isso na capital. No interior há relatos de professores que levam e buscam lições de casa na residência dos alunos, um gesto sem dúvida altamente virtuoso, mas incapaz de suprir a falta de um ensino regular.

Tudo isso mostra que o poder público, em todas as instâncias, abdicou de nortear a população em meio à travessia desse momento crucial. Cada um por si, usem máscara, lavem as mãos, e seja o que Deus e o vírus quiserem.