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por Vera Magalhães e Marcelo de Moraes

Da Vera: Weintraub e a noção de liturgia

Vera Magalhães

Um dos pontos mais recorrentes da audiência pública de Abraham Weintraub na Comissão de Educação do Senado nesta terça-feira, juntamente com as falhas do Enem e a demora na definição de um mecanismo de substituição do Fundeb, foi o comportamento do ministro da Educação nas redes sociais.

Weintraub disse que não se arrepende de nada do que já postou no Twitter, nem mesmo dos xingamentos, afirmou que eles não são “gratuitos” e atribuiu os eventuais excessos ao terreno da “liberdade” de se expressar — acrescentando, claro, que, se não puder fazê-lo, melhor se mudar para Cuba ou para a Venezuela.

O ministro da Educação, Abraham Weintraub

O ministro da Educação, Abraham Weintraub Foto: Gabriela Biló/Estadão

Afirmou que prefere ser um cara simples, desbocado, do que manter certa “liturgia” no trato e roubar dinheiro público, como se uma coisa fosse contraposta a outra, ou se fossem comportamentos correlatos.

Tratou com deboche, ironia ou clara hostilidade senadores e deputados de oposição, fez associações sem citar nomes a esses parlamentares e supostos financiadores secretos com interesses na educação — a “sujeita oculta” era a deputada Tábata Amaral (SP), uma das signatárias de seu pedido de impeachment.

Minimizou os problemas do Enem, repetiu veleidades sobre universidades federais, defendeu a expansão da presença militar no ensino superior e demonstrou que não vai apoiar a negociação para o Fundeb que já corre no Congresso. O governo, disse, vai mandar seu próprio projeto para financiamento da educação básica, embora não tenha sabido dizer qual será a linha mestra desse projeto e qual o montante de recursos previstos, nem de onde sairão.

Em resumo: Weintraub repetiu no Senado a performance que tem demonstrado nas redes sociais e nas outras vezes em que foi convidado ao Congresso. Ele demonstra fastio de ter de prestar contas a parlamentares, sustenta a lenga-lenga ideológica que de sua gestão estaria mudando paradigmas, quando na verdade ela falha na implantação de políticas já aprovadas, como a Base Nacional Comum Curricular, ou na apresentação de outras que têm prazo, como o novo Fundeb.

A chave para entender sua gestão é justamente a falta de “liturgia”, que ele defendeu: Weintraub só permanece no cargo porque Bolsonaro gosta do seu estilo bateu-levou. Assim sendo, é inócuo cobrar dele postura, educação nas redes sociais ou disposição ao diálogo com opositores. Ele seguirá usando o MEC para cortina de fumaça ideológica, como bem definiu o senador Alessandro Teixeira (Cidadania-SE).