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por Vera Magalhães e Marcelo de Moraes

De Sérgio Camargo aos negros: Não culpe o ‘opressor’ por seus fracassos

Alexandra Martins

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O presidente da Fundação Palmares, Sérgio Camargo, reproduziu um vídeo em seu perfil do Instagram nesta terça, 9, de um músico negro que condena a postura de outros negros de olharem para o “retrovisor” da história marcada por racismo, escravidão e exclusão social. Segundo o moço, é preciso olhar para o “para-brisas” porque foi assim que ele conquistou uma gelateria em Alphaville (SP), um estúdio bacana e uma agência de turismo em Israel. Basta querer, diz. O autor da gravação ainda nega o conceito atual e abrangente de raça porque só existe a raça humana. Dispensável acrescentar que o rapaz se coloca radicalmente contra as cotas nas universidades: “Quanto que o branco paga? R$ 5 mil? Eu quero pagar então R$ 5 mil”.

O músico Wesley Ross no vídeo compartilhado por Sérgio Camargo

O músico Wesley Ross no vídeo compartilhado por Sérgio Camargo Foto: Reprodução

“Qualifica-se, preto. Cresça, preto. Por que você ainda não conquista? Porque você tem o retrovisor na sua mente. Tapado, pequeno, pobre. Tem gente que pensa que pobreza está no poder. Está dentro da sua caixa (mostra a cabeça), que é um ninho de pobreza”, diz o protagonista do vídeo, dando seu próprio exemplo. “Hoje eu tenho um baita de um estúdio bacana, uma agência de turismo em Israel, escritório em Alphaville, uma gelateria em Alphaville, entendeu? Eu cresci sem precisar da ajuda do preto e do branco”, dispara.

A biologia afasta a existência de raças na classificação da espécie humana, pois não há evidências biológicas que corroborem essa subdivisão*. No entanto, do ponto de vista histórico, social e político, como já defenderam vários sociólogos e historiadores brasileiros e estrangeiros, como Caio Prado Júnior, Antonio Sérgio Alfredo Guimarães e Colette Guillaumin, a percepção racial alcança outro patamar na pós-modernidade.

“A realidade da raça não é mais biológica, mas sim histórica, política e social (…) O nó central do problema não é a raça em si, mas sim as representações dessa palavra e a ideologia dela derivada. Se até o fim do século XIX e início do século XX, o racismo dependeu da racionalidade científica da raça, hoje ele independe dessa variante biológica. Ou seja, o racismo no século XXI se reconstrói com base em outras essencializações, notadamente culturais e históricas e até aquelas consideradas politicamente corretas como a etnia, a identidade e a diferença cultural”, defende o antropólogo brasileiro-congolês Kabengele Munanga.

Para Camargo, porém, o músico dá uma “excelente lição”: “O vitimismo é o maior inimigo do negro. Não fiquem culpando o “opressor”, o “branco privilegiado” por seus erros e fracassos. Vão à luta. O negro é tão capaz quanto qualquer um, não um coitadinho. Excelente lição neste vídeo!”, escreve ele, como se a negação do racismo e seus efeitos sociais tivessem o poder mágico de extirpar as desigualdades sociais e econômicas presentes hoje na população negra.

*BERSANI, Humberto. Aporte Teóricos e Reflexões sobre o Racismo Estrutural no Brasil, Extraprensa, São Paulo, v. 11, n. 2, p. 175 – 196, jan./jun. 2018.

 

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