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por Vera Magalhães e Marcelo de Moraes

Opinião Ideia Big Data: Serão as deepfakes as novas influenciadoras?

Equipe BR Político

Por Cila Schulman*

Com a proximidade da eleição que definirá a sucessão de Donald Trump, em 2020, crescem as atenções sobre duas redes sociais: o WhatsApp, muito usado no Brasil e na Índia, mas pouco nos Estados Unidos, e o Instagram, aplicativo de fotos e vídeos que agrega um público mais jovem. As duas empresas pertencem ao Facebook, considerado o vilão da última campanha norte-americana.

O presidente dos Estados Unidos, Donald Trump

Donald Trump. Foto: Jonathan Ernst/Reuters

Pelo impacto que causam na política, Facebook, WhatsApp, Twitter e YouTube (este do Google) anunciam constantemente medidas que objetivam evitar riscos à democracia. Caso da criação de mais camadas para checagem de fake news ou da restrição a compartilhamento de posts em grandes grupos.

Já o Instagram ainda precisaria tomar muitas providências para barrar perfis fakes e a reprodução de
memes pejorativos, por exemplo. É o que mostra um estudo do Centro de Negócios e Direitos Humanos da Stern, escola da New York University, divulgado mês passado. O Instagram foi criado em 2010 por dois colegas de faculdade, o americano Kevin Systrom e o brasileiro Mike Krieger. A ideia inicialmente batizada de Burbn (inspirada na bebida preferida de um deles, o bourbon) era um aplicativo de check-in em baladas, acompanhado da postagem de uma fotografia do local. Foi a breve experiência dos usuários que mudou a história. A parte valorizada do app era a foto, enquanto que o check-in era considerado muito complicado. E assim, indo atrás do cliente e da simplicidade, o Burbn virou Instagram, que virou um app de fotos, filmes, filtros e likes, que virou mais uma empresa do gigante Facebook.

Em pesquisa recente do Ideia Big Data sobre os canais de informação mais utilizados no Brasil, quase metade das pessoas que declaram acompanhar algum político nas redes sociais diz que o faz por meio do Instagram. No total, o Facebook ainda é a rede preferida, com 54%, muito à frente dos concorrentes Twitter (23%), YouTube (22%) ou do famigerado Whatsapp (11%). Mas é entre os jovens – público dos mais complexos para tocar o coração quando o assunto é política – que os números saltam aos olhos. Entre os de 18 a 24 anos, o Instagram é a preferida (56% contra 42% para o Facebook). O Instagram também tem relevância na faixa seguinte, de 25 a 34 anos (59%).

A partir desta oportunidade no Instagram, está colocado o desafio também para os candidatos a prefeito e a vereador nas eleições do próximo ano aqui no Brasil. Como eles farão para se inserir melhor numa rede em que os conteúdos mais valorizados são o look do dia da blogueira ou os primeiros passos do bebê? A congressista americana Alexandria Ocasio-Cortez – a @OAC – deu o caminho na campanha de 2018, quando postou stories (filmes que ficam apenas 24h no ar) muito pessoais, mostrando o seu cotidiano de bartender. Ou quando fez uma live diretamente da cozinha da sua casa no Bronx, preparando uma pasta e respondendo a perguntas. Já eleita, mostrou seus medos às vésperas de sua primeira entrevista para a CNN e frequentemente filma os bastidores das comissões das quais participa no Congresso Nacional.

Mas será que o que faz sentido para OAC, com seus 29 anos de idade e marinheira de primeiro mandato, fará para um prefeito que busca a reeleição no Maranhão ou para um vereador do Espírito Santo? Ou será que se não acertarem a mão, esses candidatos podem provocar uma fuga de seguidores e uma única viralização, a da urticária que muitos eleitores sentem ao se exporem à política nua e crua?

Finalmente, mas não menos importante, é outro ponto levantado pelo estudo da NYU: o ritmo com que crescem os deepfakes, os vídeos que com ajuda da tecnologia colocam o rosto de uma pessoa em outra. Ou o corpo nu de uma pessoa na cabeça de outra. Ou, ainda, a voz de um locutor na boca de um político. E são exatamente o WhatsApp, por sua capacidade de distribuição, e o Instagram, por ser próprio para a postagem de filmes efêmeros, os terrenos mais férteis para a proliferação dos deepfakes. A boa notícia é que dada a sua tosquice, os deepfakes ainda estão longe de enganar
um eleitor atento. A má é que a tecnologia que hoje depende de grandes equipes especializadas, avança e melhora exponencialmente, com acesso cada vez mais barato. Portanto, nunca um velho ditado esteve tão atual quanto o tantas vezes citado pelo colunista social Ibrahim Sued, cronista de um outro tempo: “olho vivo, que cavalo não desce escada”.

É jornalista com especialização em gestão política pela George Washington University e professora convidada de cursos de formação política. Trabalha com políticas públicas e campanhas eleitorais desde os anos 1980. É vice-presidente do IDEIA Big Data.