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por Vera Magalhães e Marcelo de Moraes

Derrota de Bolsonaro, a volta da política e uma nova esquerda

Vera Magalhães

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Existe a máxima segundo a qual eleições municipais seguem a lógica local e levam em conta apenas fatores diretamente ligados aos municípios. É verdade. Mas também é impossível, sobretudo nos grandes centros urbanos, dissociar esse voto de uma análise nacional de algumas grandes balizas de economia e política.

Jair Bolsonaro. Foto: Gabriela Biló/Estadão

A primeira delas neste 2020 é claramente a pandemia. Ela não só mudou a maneira como se fez campanha e a data da eleição como claramente moldou a disposição do eleitor de encarar os candidatos de forma mais racional e desapaixonada. Aquela gestores que demonstraram responsabilidade no trato da pandemia foram reconhecidos pelo eleitor dos grandes centros.

E o negacionismo em relação à gravidade de uma peste que ceifou mais de 163 mil vidas de brasileiros vai também cobrando um preço nas urnas.

A segunda grande conclusão nacional possível das disputas municipais é que houve um resgate da política do pântano no qual ela foi jogada depois de eventos traumáticos como Lava Jato, impeachment de Dilma Rousseff, prisão de Lula, desmoralização de Aécio Neves e denúncias em série contra Michel Temer no curso de sua curta Presidência.

Esse conjunto surreal de eventos em menos de quatro anos permitiu que um outsider como Jair Bolsonaro virasse um Cacareco com sucesso eleitoral.

A pandemia, a maneira irresponsável com que ele se comportou ao longo de todo este ano e a rápida debacle de outras figuras histriônicas eleitas na sua aba levaram a que agora, apenas dois anos depois, a “nova” política fosse levada de volta às redes sociais.

O fracasso de um nome como Joice Hasselmann, que foi de deputada de milhões de votos a candidata de 2%, é um exemplo clássico.

A terceira grande conclusão do oleiro nacional é o surgimento de uma nova esquerda não-petista com musculatura em todo o País. PSOL , PDT, PSB e até o PC do B, com histórico de ser um satélite petista, vão avançando em várias capitais, ao passo que o PT tenha a cabeça de chapa em apenas duas disputas de segundo turno — sem ser favorito em nenhuma delas.

O partido segue negando as evidências: o fato de que ele não fez nenhum gesto de fato sincero e efetivo de reconhecimento de que promoveu corrupção sistêmica no governo ao mesmo tempo em que destruiu a economia. É a terceira eleição seguida em que o eleitorado pune o PT. Será isso também culpa do Sérgio Moro apenas? O eleitorado é assim tão tolo?

Por fim, a eleição mostra um espaço de reconstituição do centro, também ele dizimado em 2018. O DEM sai fortalecido, elegendo prefeitos de três capitais já no primeiro turno.

O PSDB depende da vitória em São Paulo em segundo turno para medir as chances de construir uma aliança para 2022 em torno de João Doria Jr., e o PSD de Gilberto Kassab leva Belo Horizonte com folga.

A abrangência desse centro, suas delimitações à esquerda e à direita e quem será aceito na festa do céu são questões postas desde já. O que fica evidente é que há espaço para projetos alternativos à polarização Bolsonaro-PT, porque o eleitor está cansado do primeiro e sem saudade do segundo.

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