Imagem da Vera Magalhães e Marcelo de Moraes

por Marcelo de Moraes

Divisão nas negociações atrapalha e DEM pode perder ambas as casas do Congresso

Gustavo Zucchi

Exclusivo para assinantes

O DEM, que comanda ambas as casas do Congresso Nacional, corre sério risco de iniciar o próximo ano legislativo de mãos abanando. O partido praticamente abriu mão de indicar um nome para a sucessão de Rodrigo Maia (DEM-RJ) e vê a possibilidade de Davi Alcolumbre (DEM-AP) conseguir emplacar um nome de sua legenda diminuírem.

Os presidentes Rodrigo Maia (Câmara)e Davi Alcolumbre (Senado) FOTO:DIDA SAMPAIO/ESTADAO

O problema está na estratégia adotada pelo partido. Enquanto caciques da sigla trabalham para formar um bloco na Câmara, Alcolumbre é o responsável por articular a própria sucessão no Senado. É um prato cheio para adversários, em especial o PP, que começa a propor trocas para eleger Arthur Lira (PP-AL) na Câmara, oferecendo apoio para nomes no Senado.

É o caso do MDB. A legenda está no bloco de Maia para enfrentar Lira, e deseja ter a indicação de Baleia Rossi (MDB-SP) para sucessão na Casa Baixa. Entretanto, no Senado, o partido aparece como possível adversário dos democratas. Dois nomes pleiteiam ocupar a presidência da mesa: Eduardo Braga (MDB-AM) e Eduardo Gomes (MDB-TO). Enquanto isso, Alcolumbre dá sinais de que deve indicar Rodrigo Pacheco (DEM-MG) como seu sucessor.

Isso abre espaço para Ciro Nogueira (PP-PB), presidente de seu partido, oferecer uma troca. Seu grupo fica ao lado dos emedebistas no Senado e pede apoio para Lira. A resistência é justamente de Baleia Rossi. Mas, caso Maia prefira indicar outro nome, já foi avisado que será difícil ter os votos da bancada do MDB na Câmara.

Maia, que lançou na última semana um bloco com 157 deputados, precisa de parlamentares de esquerda para enfrentar Lira. Mas as bancadas de oposição tem resistência ao nome de Rossi e preferem Aguinaldo Ribeiro (PP-PB). Nas palavras de parlamentas ao BRP, Maia está com um cubo mágico nas mãos. E não está conseguindo montar o quebra-cabeça. Se move-se para um lado, desmonta outro.

Lira chegou a tentar conquistar a esquerda, apesar do apoio de Jair Bolsonaro afastar alas oposicionistas da Câmara. O parlamentar alagoano tem afirmado que não tem compromisso com a agenda de costumes do Palácio do Planalto e promete dar espaço para todas as siglas na escolha das pautas que irão ao plenário.

“Todo diálogo começa largo. Ele tem que começar bem amplo, respeitando as minorias, a oposição, o regimento, a altivez do Poder Legislativo, toda sua pluralidade de pensamentos e correntes ideológicas. Nós temos sempre que respeitar isso”, disse.

O jogo mudou?

A situação acaba colocando Maia e Alcolumbre em cantos opostos. E a relação entre os dois não estaria das melhores, dificultando ainda mais uma negociação conjunta que favoreça o partido. O atual presidente do Senado é também mais próximo do governo de Jair Bolsonaro, enquanto Maia faz questão de se colocar como um oposicionista às políticas do Palácio do Planalto.

Em 2019, as negociações que colocam o DEM no comando das duas Casas Legislativas aconteceram de forma separada. Maia contou com uma votação expressiva, ganhando em primeiro turno. Teve, inclusive, a articulação de Ciro Nogueira, que na ocasião fez Arthur Lira desistir de concorrer e se juntar ao bloco do democrata.

No Senado, Alcolumbre aproveitou da forte resistência ao nome do MDB, Renan Calheiros (AL), e enfrentou uma eleição dura, no qual houve até um voto extra, além do número de 81 senadores, que anulou uma das votações.

Agora, o MDB, que tem a maior bancada do Senado, avisou novamente que irá lançar candidato. O líder da legenda, Eduardo Braga, diz que não abre mão de ter um nome do partido na presidência da Casa Alta.

Os emedebistas têm uma longa tradição de comandar o Senado. De 1988 para cá, apenas com Antônio Carlos Magalhães (PFL) e com Alcolumbre é que a sigla não comandou a casa legislativa (tirando em breves ocasiões quando Tião Viana e Edison Lobão, interinamente, estiveram na presidência do Senado).