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por Vera Magalhães e Marcelo de Moraes

Do Marcelo: A incrível produtividade da usina de crises do governo

Marcelo de Moraes

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No ano passado, irritado com mais uma das dezenas de trombadas com o governo durante a discussão da reforma da Previdência, o presidente da Câmara, Rodrigo Maia, disse que o governo parecia uma usina de crises, pela capacidade que tinha de criar problemas. É difícil não concordar com a avaliação feita pelo deputado para tentar entender o que vem ocorrendo com o governo e seus principais integrantes em 2020. Estamos apenas em fevereiro, mas o ano tem sido terrivelmente produtivo em termos de crises e declarações desastradas ou absurdas envolvendo integrantes do governo.

Foto: Alan Santos/PR

Parece que já faz um século, mas, no mês passado, o então secretário de Cultura Roberto Alvim chocou a opinião pública com um discurso repleto de referências nazistas, que lhe custaram o cargo.

Também parece que foi em outro milênio a trombada política de Jair Bolsonaro com o ministro da Justiça, Sérgio Moro, por conta da disposição do presidente em desmembrar de sua pasta a área da Segurança Pública. O ruído com seu ministro mais popular causou desgaste na imagem de Bolsonaro, que tratou de afirmar que nunca tinha pensando em tomar a decisão que enfraqueceria a pasta de Moro.

Teve mais: a crise provocada pelo uso quase privado de jatinho da FAB pelo então número dois da Casa Civil Vicente Santini, que provocou sua demissão. E mais a demissão do presidente do INSS Renato Vieira pelo colapso no atendimento dos benefícios previdenciários. A queda do ministro do Desenvolvimento Regional Gustavo Canuto por conta da baixa eficiência de sua pasta, que inclui, por exemplo, o programa Minha Casa, Minha Vida.

Em termos de quedas, as últimas semanas foram cheias. Em busca de maior eficiência, Bolsonaro demitiu Osmar Terra do Ministério da Cidadania, onde o atendimento do Bolsa Família também passa por um apagão. Deslocou para lá Onyx Lorenzoni, que perdeu a Casa Civil por não conseguir entregar uma gestão eficiente no gerenciamento de governo. De quebra, o presidente militarizou de vez seu entorno no Planalto, colocando o general Braga Netto no lugar de Onyx na Casa Civil.

Como se fosse um daqueles comerciais de televisão, dá para repetir aquela frase sobre promoções: você pensa que acabou? Bolsonaro entrou em choque com os governadores, ao jogar no colo deles a responsabilidade pelo preço alto dos combustíveis na bomba por conta da cobrança do ICMS pelos Estados. As divergências com os governadores aumentaram tanto de temperatura, que vinte deles assinaram uma carta protestando contra o comportamento e ataques feitos pelo presidente.

O ministro da Economia, Paulo Guedes, também contribuiu bastante com a usina de crises. Foram dele duas frases desastradas, feitas quase em sequência. Numa, fez uma associação infeliz entre servidores públicos e parasitas. Na outra, ao criticar a baixa cotação do dólar no passado, usou como exemplo de problema o fato de até empregadas domésticas estarem viajando para a Disney, aproveitando a moeda americana barata. O ministro se desculpou, disse que suas falas foram retiradas do contexto, mas o desgaste foi forte.

Ontem, Bolsonaro colocou mais um tijolo no muro dessa usina ao ofender a jornalista Patrícia Campos Mello, da Folha de S.Paulo, e provocar intensa reação negativa pela sua ação.

Permeando todos esses problemas – e houve muitos outros – há ainda o turbulento caso do miliciano Adriano da Nóbrega, morto num cerco feito pela Polícia Militar da Bahia, numa operação que ainda está sendo investigada e que pode ter desdobramentos políticos imprevisíveis.

Não é a toa que discussões fundamentais para a retomada do crescimento do País, como as reformas tributária e administrativa, enfrentam dificuldades para avançar no Congresso. Com a operação incessante da usina de crises, será uma façanha ver essas propostas dobrarem tantos obstáculos e serem aprovadas.