Imagem da Vera Magalhães e Marcelo de Moraes

por Marcelo de Moraes

Do Marcelo: A roupa velha do rei

Marcelo de Moraes

Faz sentido Jair Bolsonaro demonstrar tanta alegria ao participar de um evento que coloca em exposição os trajes usados por ele e pela primeira-dama Michelle Bolsonaro no dia da sua posse. Certamente, ao ver as roupas, o presidente viaja de volta a um tempo em que, recém-consagrado pelas urnas, tinha muito menos preocupações.

Coquetel com exposição dos trajes da Posse Presidencial. Foto: Alan Santos/PR

A má notícia para o presidente é que ele não pode viver no passado. No mundo real, a pandemia do coronavírus segue fazendo centenas de vítimas diárias no Brasil e o governo demonstra, a essa altura do campeonato, uma inacreditável desorganização em relação à compra e distribuição de vacinas.

No Reino Unido, nesta terça-feira, as pessoas já começaram a ser vacinadas. Em São Paulo, o governador João Doria (PSDB) anuncia para o dia 25 de janeiro o início da vacinação no Estado – mesmo sem ter ainda o sinal verde da Anvisa para o uso da Coronavac. Enquanto isso, o governo federal somente se move na base da pressão. Lento nas suas ações, o Ministério da Saúde, somente agora, negocia com a Pfizer a compra de 70 milhões de doses da vacina.

Como o governo só planeja vacinar os brasileiros a partir de março – lembrando que hoje, 8 de dezembro, os britânicos já estão sendo vacinados – o ministro da Saúde, Eduardo Pazuello, será novamente pressionado durante reunião com os governadores. Também devidamente apertados em seus Estados, eles estão em Brasília justamente para cobrar pressa no plano de vacinação. Como desconfiam que pode ser em vão, ao mesmo tempo, se articulam com o governador de São Paulo para receber um repasse das doses da Coronavac, assim que ela estiver disponível.

Aparentemente, o governo não dimensiona a ansiedade desesperada das pessoas que esperam pela vacinação, depois de nove meses de pandemia e quase 180 mil mortes. Talvez o presidente também não tenha escutado o recado das urnas, na qual seu apoio não serviu para impedir a derrota da maioria dos seus aliados. O desgaste sofrido nos dois primeiros anos de administração e o negacionismo demonstrado em relação ao coronavírus já estão cobrando uma alta conta política.

Olhar para as antigas roupas da posse pode até provocar nostalgia no presidente. Mas só admirar o passado não resolverá os problemas do presente.