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por Vera Magalhães e Marcelo de Moraes

Do Marcelo: Ao trombar com Moro, Bolsonaro faz seu movimento mais arriscado

Marcelo de Moraes

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Quando Jair Bolsonaro conseguiu convencer o juiz Sérgio Moro a trocar o comando da Lava Jato pelo Ministério da Justiça e Segurança Pública do seu governo, escrevi aqui se seria possível dois “mitos” conviverem harmonicamente no mesmo espaço político. Um ano e quatro meses depois, a resposta parece que será dada, já que Moro fará um pronunciamento às 11 horas, onde deve anunciar seu desligamento do Ministério por causa da demissão do diretor da Polícia Federal, Maurício Valeixo, contra sua vontade.

O presidente Jair Bolsonaro e o ministro da Justiça, Sérgio Moro

O presidente Jair Bolsonaro e o ministro da Justiça, Sérgio Moro Foto: Gabriela Biló/Estadão

Moro segue sendo a figura mais popular do governo e tem, em tese, força para minar o prestígio político do presidente. Por isso, a movimentação política de Bolsonaro na direção de trombar de frente com Moro se torna seu passo mais ousado e arriscado. A popularidade do presidente já está longe do que era quando chegou ao poder. Pelo contrário. As incessantes polêmicas e brigas com meio mundo, além da postura de negação do perigo do coronavírus, serviram para deteriorar de vez sua substância política. A ponto de deixá-lo cada vez mais isolado politicamente.

E o problema é que esse isolamento o deixou vulnerável para até sofrer um processo de impeachment no Congresso. Para evitar isso, decidiu buscar o apoio de integrantes do Centrão, o mais poderoso núcleo de poder do Parlamento e que sempre parece disposto a negociar com quem esteja disposto a atender seus pedidos. Vários desses parlamentares, por sinal, foram alvo de investigações promovidas justamente pela Lava Jato.

Como ministro da Justiça, Moro também tem sob o seu guarda-chuva a Polícia Federal, que participa da investigação do ato público que pediu o fechamento do Congresso e do Supremo, e do esquema de distribuição de fake news contra o STF e seus integrantes. São investigações que podem bater na porta do entorno bolsonarista. Por isso, a decisão de demitir Valeixo ganha mais peso ainda.

Bolsonaro já tinha tomado uma decisão arriscada ao demitir, na semana passada, o ministro da Saúde, Luiz Henrique Mandetta, no meio da pandemia do coronavírus. Apesar de toda a aprovação que Mandetta tinha, o presidente bancou sua degola. Embora a medida tenha sido alvo de muitas críticas, o mundo seguiu em frente.

Talvez isso tenha feito o presidente decidir dar um passo mais ousado na direção de confrontar Moro, a ponto de demitir um de seus principais auxiliares sem a sua anuência. A diferença, porém, é gigantesca. Mandetta era uma estrela nova na constelação política de Brasília e se destacou por causa da condução do combate ao coronavírus. Moro construiu um patrimônio fortíssimo à frente da Lava Jato. E Bolsonaro surfou politicamente justamente nesse combate à corrupção liderado pelo então juiz. Agora, com o provável rompimento, será possível ver quem é o verdadeiro dono desse capital político.