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por Vera Magalhães e Marcelo de Moraes

Do Marcelo: As reformas que lutem

Marcelo de Moraes

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Desde o ano passado, o governo vem enviando sinais esquisitos e dúbios em relação à proposta de reforma administrativa. Deseja que seja feita, mas não quer lidar com um possível desgaste político com os servidores públicos. Quer enxugar a máquina do Estado e cobra eficiência, mas prefere que o Congresso descasque sozinho esse abacaxi político. Esse lenga-lenga não é a toa. O governo, de fato, está numa sinuca de bico para lidar com o problema. Sabe que a reforma pode garantir uma maior racionalização da administração pública e gerar mais eficiência, mas entende que a conta política a pagar pode ser mais alta do que está disposto a pagar.

O Congresso Nacional retomou as atividades legislativas em 3 de fevereiro. Foto: Gabriela Biló

Para complicar ainda mais esse cenário, o presidente Jair Bolsonaro sabe que o mercado e os investidores aguardam com ansiedade pela aprovação das reformas tributária e administrativa como continuação das mudanças estruturais da economia do País, iniciada com a aprovação da reforma da Previdência. Ou seja, se as propostas não andarem, a reação dos investidores deverá ser bastante ruim.

Por isso, o governo parece apostar na solução da reforma da Previdência. Também temendo o desgaste político da proposta, o governo sempre andou meio de ladinho na hora de brigar pela reforma. De fato, ela só passou porque foi empurrada pelos presidentes da Câmara, Rodrigo Maia, e do Senado, Davi Alcolumbre, e mais um grupo de parlamentares defensores da medida.

Agora, nas novas reformas, o Planalto alimentou a ideia que algo semelhante poderia acontecer, com o esforço – e a conta política – ficando nas costas do Congresso. Na questão tributária, que interessa prioritariamente os parlamentares, até vai colar essa estratégia. É provável que essa reforma ande em até cinco meses por causa desse esforço. Mas no caso da administrativa a conversa é completamente diferente.

Rodrigo Maia já avisou que se o governo não enviar sua proposta de reforma administrativa, a Câmara não tem como fazer o serviço por ele. E o Planalto, hoje, já não tem mais dúvidas de que precisará lidar com um grande desgaste para tratar desse projeto. Um exemplo disso ficou claro quando o ministro da Economia, Paulo Guedes, comparou servidores a parasitas. A repercussão foi a pior possível e o ministro foi obrigado a pedir desculpas. Se havia alguma dúvida sobre o risco de estar pisando em terreno minado, este episódio acabou com a incerteza.

O governo precisará, agora, medir o que vale mais a pena para seu futuro. Ignorar a reforma e lidar com o impacto negativo que isso pode trazer para a economia ou tocá-la e gerenciar seu desgaste. A única certeza é que se o governo lavar as mãos em relação à proposta, ela não sairá do papel.

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