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por Vera Magalhães e Marcelo de Moraes

Do Marcelo: Bolsonarismo tenta construir narrativa para minimizar derrota

Marcelo de Moraes

Jair Bolsonaro poderia ter passado ao largo da eleição municipal. Não havia grandes interesses políticos em jogo que o obrigassem a se envolver diretamente nessa disputa. Mas, como é legítimo na política, resolveu apoiar alguns candidatos e amargou uma série de derrotas. Algumas bem constrangedoras, como em São Paulo e Recife. Mas o pior foi ter sua imagem vencedora de 2018 afetada pela participação mal sucedida de agora. Ao apoiar candidatos que foram derrotados, Bolsonaro perdeu junto e se enfraqueceu politicamente.

O presidente Jair Bolsonaro e o candidato Celso Russomanno

O presidente Jair Bolsonaro e o candidato Celso Russomanno Foto: Alex Silva/Estadão

Aliados próximos do presidente entenderam o tamanho do prejuízo e tentam construir uma narrativa para conseguir criar uma espécie de redução de danos. Um dos argumentos é tentar usar o mau desempenho do PT no Nordeste como prova de que as políticas de Bolsonaro serviram para derrotar os candidatos petistas nas capitais da região. Só que, em 2016, o PT já não tinha vencido em nenhuma capital no Nordeste. Chegou, no máximo, ao segundo turno em Recife. Ou seja, rigorosamente o mesmo mau resultado de quatro anos atrás, sendo que, agora, ainda pode vencer na capital pernambucana onde Marília Arraes enfrenta João Campos do PSB.

No seu vídeo de agradecimento pelos votos recebidos para sua reeleição, o vereador Carlos Bolsonaro usa essa narrativa para amenizar o mau resultado do bolsonarismo.

“Se engana quem acha que o presidente sai derrotado nessa aí. Essa narrativa vai por água abaixo. Basta só você olhar ali o que aconteceu, por exemplo, no Nordeste. Onde o PT perdeu, praticamente, em todas as grandes capitais e isso não acontecia há muito tempo. Tenha certeza que isso foi trabalho do presidente Bolsonaro e seus ministros, levando o mínimo para que aquela região possa sair daquela escravidão que você, principalmente pela falta d’água”, disse Carlos.

O “não acontecia há muito tempo” é exatamente a eleição passada. Mas, claro que isso é o jogo jogado. É óbvio que os bolsonaristas vão defender seu lado na disputa política. Assim como a esquerda vai tentar faturar resultados como a chegada de Guilherme Boulos (PSOL) ao segundo turno em São Paulo. A narrativa faz parte da estratégia política. Só que ela não é garantia de votos nas urnas.

Isso, até agora, quem faturou foram os partidos de centro, que adotaram um discurso mais moderado e atraíram os eleitores cansados da antipolítica e do radicalismo. No primeiro turno, o DEM já levou três capitais, o PSDB duas e o PSD outras duas. Podem levar mais ainda, inclusive com PSDB e DEM liderando as pesquisas em São Paulo e no Rio, os dois maiores colégios eleitorais em disputa no segundo turno. Isso indica que a busca por moderação foi o grande recado das urnas até agora. E contra resultado narrativa vira só narrativa.