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por Vera Magalhães e Marcelo de Moraes

Do Marcelo: Bolsonaro abala pilares do seu governo e amplia desgaste

Marcelo de Moraes

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Em menos de uma semana, Jair Bolsonaro parece ter decidido radicalizar suas decisões dentro do governo. Mas o custo de tantos movimentos bruscos pode ser uma crise política de proporções ainda incalculáveis.

É uma sequência assombrosa de atos. Na sexta passada, o presidente demitiu o superpopular ministro da Saúde, Luiz Henrique Mandetta, no meio da pandemia do coronavírus. No domingo, desafiou os limites da democracia comparecendo e fazendo discurso num ato que pregava fechamento do Congresso, STF e a volta do AI-5. Na quarta, enfraqueceu Paulo Guedes, com o anúncio de um plano de recuperação econômica coordenado pela Casa Civil, com bases das quais o ministro da Economia discorda e anunciado sem sua presença. E, para fechar a sequência, Bolsonaro trombou mais uma vez com o ministro da Justiça, Sérgio Moro, ameaçando rifar o diretor da Polícia Federal e perder o ex-juiz junto.

O presidente Jair Bolsonaro

O presidente Jair Bolsonaro Foto: Adriano Machado/Reuters

Não se pode esquecer que, no meio disso tudo, ainda acontece o namoro explícito do presidente com o Centrão, com as bênçãos de dois titãs da velhíssima política, Roberto Jefferson e Valdemar Costa Neto. Não custa lembrar que ambos já passaram uma temporada presos por envolvimento em corrupção.

O maior problema é que, além de mexer com peças centrais da sua equipe, Bolsonaro abala os próprios pilares com os quais construiu o seu governo. A entrada de Moro na equipe ministerial simbolizou uma parceria com a Lava Jato e uma aliança com o combate à corrupção e ao crime organizado. Não combina em nada com a aliança em discussão com o Centrão, onde militam vários políticos que foram investigados e condenados dentro da Lava Jato.

Já Guedes é seu fiador no mundo econômico e responsável pela credibilidade do governo com o mercado e investidores. Ao fortalecer as ideias desenvolvimentistas da ala militar, Bolsonaro manda um sinal invertido ao que sempre defendeu o ministro, um pregador convicto das práticas liberais. Preocupado com a quebradeira que pode abalar a economia brasileira por causa do coronavírus, Bolsonaro parece estar se inclinando aos pensamentos da ala militar, que defende uma espécie de plano de reconstrução nacional – que lembra o PAC de Dilma Rousseff. Se não vai ser mais do jeito que Guedes quer, a continuidade do ministro no cargo passa a ser uma incógnita.

Nada é por acaso. Os movimentos de Bolsonaro são consequência do seu isolamento político. Para não correr o risco de ser emparedado pelo Congresso e até ver aberto um pedido de processo de impeachment, Bolsonaro decidiu cair nos braços do Centrão, mesmo sabendo que Moro tinha sido responsável, como juiz da Lava Jato, por investigações contra vários dos integrantes do grupo. A trombada com Moro foi ainda maior por causa de mais uma tentativa de influenciar na escolha do comandante da Polícia Federal. E aí já não se trata mais de Centrão, mas até dos rumos das investigações sobre Fabrício Queiróz e seus desdobramentos.

Sem esses dois pilares, restam a Bolsonaro o apoio feroz da ala radical ideológica, cada vez menor, e dos militares, que seguem ao seu lado, mas tentando apagar os incêndios cada vez mais corriqueiros dentro do governo.