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por Marcelo de Moraes

Do Marcelo: Bolsonaro paz e amor foi engolido pelo jacaré

Marcelo de Moraes

Na manhã de quarta-feira, 16, Jair Bolsonaro vestiu a farda do “presidente paz e amor” durante o lançamento do Plano Nacional de Operacionalização da Vacinação Contra a Covid-19. Num discurso em tom conciliador, parecia quase convencer que assumiria uma postura equilibrada na organização da estratégia de vacinação nacional. Para os mais otimistas, deu até a impressão que pensava em se desculpar por minimizar a pandemia.

Presidente Jair Bolsonaro participa de solenidade de encerramento dos Cursos de Formação Profissional para os cargos de Delegado de Polícia Federal e Perito Criminal Federal. Fotos: Alan Santos /PR

No dia seguinte, logo depois que o Supremo Tribunal Federal decidiu que a vacinação terá de ser obrigatória, o presidente recolocou seu uniforme tradicional, o de guerra, e voltou a disparar contra a obrigação das vacinas. Mesmo com a disparada do número de casos e de mortes pela covid-19 (mais de mil óbitos registrados ontem), Bolsonaro reforçou sua fala negacionista e repetiu que não vai se vacinar.

Para piorar, ainda misturou zombaria com obscurantismo ao justificar por qual razão o Ministério da Saúde não tinha fechado acordo para comprar as vacinas da Pfizer, que já estão sendo usadas em países como Reino Unido e Estados Unidos e foram adquiridas por outras nações. Até passaria a queixa de que a empresa quer se isentar de qualquer responsabilidade por eventuais efeitos colaterais danosos da vacina se fosse feita de maneira racional. Mas debochar que a pessoa que tomar a vacina poderia virar jacaré serve para abraçar com força o seu negacionismo diante da pandemia e dá corda para a ala mais radical e abilolada que o apoia atuar nas redes sociais.

A questão é que, mais uma vez, o presidente mostrou que a moderação na fala de quarta-feira era somente uma estratégia de ocasião. Com a pressão da opinião pública pela vacinação o mais rápido possível, Bolsonaro recuou taticamente para reduzir seu desgaste. Mas não mudou um centímetro na forma de pensar e de tratar o assunto desde que a pandemia assolou o Brasil, em março. E com o próprio governo remando na direção contrária do bom senso, não há plano de vacinação que resolva.