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por Vera Magalhães e Marcelo de Moraes

Do Marcelo: Desafio do governo será blindar seu pacote de propostas

Marcelo de Moraes

No exato momento em que o governo colocou na rua seu pacote de propostas para reformar o Estado e desengessar a economia, uma sequência de acontecimentos surge para ameaçar essa ação. Na quinta, o Supremo Tribunal Federal derrubou a decisão sobre prisão depois da condenação em segunda instância. Ato contínuo, a Justiça libera o ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva da cadeia, que, imediatamente, reassume sua militância política à frente da oposição.

Presidente Jair Bolsonaro entregou pessoalmente ao Senado o novo pacote de medidas econômicas. Foto: Roque de Sá/Agência Senado

Como se fosse pouco, a vizinha Bolívia entra em caos e o presidente Evo Morales renuncia com grande repercussão na política brasileira. No meio da gritaria de sempre, a oposição brasileira classifica o processo de golpe. Já governo e conservadores comemoram a queda do boliviano, o acusando de tentar se perpetuar no poder através de fraudes eleitorais. Tudo indica que os dois lados estão certos.

Com tudo isso, é possível começar a vislumbrar no horizonte a formação de uma tempestade perfeita contra as propostas elaboradas pela equipe econômica de Jair Bolsonaro. No Congresso, já há mobilização expressiva para tentar aprovar imediatamente uma mudança constitucional que retome a prisão em segunda instância. No campo político, Lula bota o bloco na rua e inicia articulações para recuperar musculatura política de olho na sucessão presidencial de 2022. É isso mesmo. Estamos em 2019, mas a turma – incluindo o presidente Bolsonaro – já mira em 2022.

Tudo beleza se isso não surgisse justamente no momento em que a economia brasileira parece começar a tirar a cabeça debaixo da água. Tudo o que não precisa nesse momento é de balbúrdia. Afinal, depois de enfrentar um período de imensas dificuldades, surgiram os primeiros sinais de recuperação. A reforma da Previdência foi aprovada no Congresso, os juros caíram como nunca, alguns setores, como imobiliário e serviços, retomam seu fôlego, o ambiente de negócios melhorou e as projeções de crescimento do PIB para 2019 e 2020 começaram a ser revistas para cima.

Com o chamado Plano Mais Brasil, o governo planejou aproveitar esse quadro para fazer o seu segundo movimento em busca de deslanchar a economia. As propostas estão longe de serem consensuais e carecem de explicações mais detalhadas que as justifiquem. Mas o fato é que o governo botou suas ideias na mesa para o debate do Congresso. Reforma do Estado, privatizações, relações trabalhistas, pacto federativo, gastos públicos. São discussões importantes. Pode não se concordar com o conteúdo do pacote, mas não dá para negar sua ambição.

E também não dá para ignorar o quadro político que se formou nos últimos dias no Brasil. O maior desafio do governo, nesse momento, é justamente o de tentar blindar seu pacote contra toda essa agitação – muitas vezes provocada pelo próprio presidente e seus aliados – e impedir que as propostas acabem sendo colocadas de lado e enviadas para a bacia das almas. Sempre é importante lembrar que o calendário eleitoral encurta o prazo disponível para tratar de propostas tão ambiciosas. E com todas essas agitações políticas, esse relógio corre cada vez mais rápido.