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por Vera Magalhães e Marcelo de Moraes

Do Marcelo: Governo não vai apagar incêndio político do Congresso com retaliação

Marcelo de Moraes

Depois de sofrer um significativo revés na votação da reforma da Previdência, no Senado, o governo enviou hoje cedo um duro recado aos parlamentares. A cada redução da potência fiscal representada pela reforma, o governo reduziria os repasses de recursos para o chamado pacto federativo. Ou seja, o governo promete retaliar os parlamentares se a proposta for mais desidratada ainda.

Plenário do Senado Federal durante votação da reforma da Previdência

Plenário do Senado Federal durante votação da reforma da Previdência. Foto: Jefferson Rudy/Agência Senado

É um erro estratégico do governo achar que vai funcionar o estilo de “a cada morto meu, matarei cem dos seus” como forma de assustar os adversários. Nem nas guerras essa tática deu certo.

O governo fez vista grossa para a brigalhada deflagrada dentro do Congresso desde que começaram as discussões a respeito da divisão dos recursos provenientes do megaleilão do pré-sal. Há um brutal desentendimento sobre o assunto e os senadores desconfiam que o Planalto pende para o lado dos deputados, podendo destinar mais recursos dessa divisão para as prefeituras do que para os Estados, como a Casa prefere.

Além disso, a insatisfação dos senadores não está apenas nesse ponto. Há cobrança pelo pagamento de emendas prometidas e nunca entregues. Há queixas de que o Senado foi relegado ao papel de mero homologador das reformas discutidas pela Câmara, como acontece agora na reforma previdenciária e ocorreu no governo Temer com a reforma trabalhista. Sem falar que muitos senadores nem concordam 100% com a necessidade da reforma.

Existe ainda ressentimento com o que foi considerado como vista grossa do governo em relação à operação de busca e apreensão feita pela Polícia Federal no gabinete do senador Fernando Bezerra (MDB-PE), justamente seu líder na Casa. Com tantos componentes, o caldo entornou e a reforma da Previdência virou um alvo óbvio.

Se o governo escolher a botinada para resolver a crise com o Congresso periga desandar de vez a discussão da Previdência e outras futuras votações estratégicas. Sempre muito sensível, o mercado reagiu nervosamente na mesma hora e a Bolsa abriu a manhã desta quarta com forte queda. Mais um sinal de que o governo deveria buscar um entendimento negociado com os parlamentares.