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por Vera Magalhães e Marcelo de Moraes

Do Marcelo: Governo tenta arrumar a casa, mas confusão é grande

Marcelo de Moraes

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Em menos de duas semanas, o governo passa, simultaneamente, por uma reorganização ministerial, não consegue se decidir sobre o que fazer com as reformas e precisa lidar com declarações terríveis feitas justamente pelo ministro que mais passava tranquilidade para a economia. Nesse esquema de tudo junto e misturado, o governo tenta resolver essas confusões para impedir que se transformem num desgaste político irreversível.

Entre todos esses fatores, o mais difícil de lidar talvez seja a sequência de declarações feitas pelo ministro da Economia, Paulo Guedes. O governo ainda administrava o estrago provocado por ter comparado servidores públicos com parasitas, quando o ministro mandou outra declaração terrível, citando a possibilidade de empregadas domésticas irem a Disney como um dos problemas causados quando a cotação do dólar estava baixa.

O presidente Jair Bolsonaro no Palácio do Planalto

O presidente Jair Bolsonaro no Palácio do Planalto Foto: Adriano Machado/Reuters

Pelo quase surrealismo das duas declarações, o Planalto evitou se pronunciar a respeito, mas sabe que essas falas são do tipo que duram por todo o governo. Ou seja, certamente, vão reaparecer nas campanhas eleitorais para assombrar o presidente Jair Bolsonaro e seus aliados.

Outro fator de desequilíbrio é a posição titubeante do governo em relação às reformas. Depois da aprovação da mudança previdenciária, o mercado aguardava ansioso pela fase dois, que incluiria as reformas administrativa e tributária. Temendo o desgaste político com os servidores, Bolsonaro nunca teve grande convicção em tratar do assunto. E, mesmo assim, só se isso se referisse aos futuros servidores.

O problema é que esse sinal vacilante passou para o Congresso o grau de desinteresse do Planalto pelo tema. Pior: exibiu uma estratégia de tentar usar os parlamentares para roerem o osso  da reforma e ficarem com o desgaste para si. Obviamente, que o Congresso não topou e devolveu a bola para o governo.

No caso da tributária, como os parlamentares têm interesse nessa votação, é mais fácil que possa ser resolvida mais uma vez num esquema distante dos interesses do Planalto. Os defensores da proposta na Câmara costumam lembrar que Paulo Guedes queria a reforma para aprovar a criação de um novo imposto nos moldes da antiga CPMF. Ao ver que isso não prosperaria no Congresso, reduziu seu interesse nessa discussão.

Uma reorganização ministerial é sempre turbulenta por natureza porque envolve demissões e remanejamentos de pessoas com peso político e influentes. Mas, pelo menos nesse ponto, Bolsonaro parece ter um plano mais claro na sua cabeça. Quer mais eficiência na entrega dos programas do governo, o que fez com que levasse Rogério Marinho para o Desenvolvimento Regional. E quer melhora no funcionamento do seu entorno no Planalto, se cercando de ministros militares.

O segundo ano do governo tem sido tão intenso e complexo em termos de confusões que faz parecer que aconteceram há muito tempo crises ocorridas já em 2020, como a demissão do secretário de Cultura Roberto Alvim pelo seu discurso com viés nazista ou a trombada com o ministro da Justiça, Sérgio Moro, com a tentativa de desmembrar a área da Segurança Pública da sua pasta.