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por Vera Magalhães e Marcelo de Moraes

Do Marcelo: Mandetta e seus secretários cansaram de remar contra a maré

Marcelo de Moraes

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Perto do fim da entrevista coletiva realizada diariamente no Planalto para fazer o balanço do combate ao coronavírus, o secretário de Vigilância em Saúde, Wanderson Oliveira, foi perguntado por que tinha apresentado seu pedido de demissão ao ministro Luiz Henrique Mandetta – que não aceitou. Wanderson, um dos principais técnicos do Ministério da Saúde no combate ao coronavírus, acabou resumindo claramente. “Nós estamos cansados”.

O ministro da Saúde, Luiz Henrique Mandetta com os secretários Wanderson Oliveira e João Gabbardo

O ministro da Saúde, Luiz Henrique Mandetta com os secretários Wanderson Oliveira e João Gabbardo Foto: Dida Sampaio/Estadão

Como o ministro Mandetta tinha dito antes, sua equipe estava trabalhando de manhã, de tarde e de noite desde o início da pandemia. Mas o cansaço que mais está pesando sobre Mandetta e seus auxiliares é ter de remar contra a maré dentro do governo. Defensores do isolamento social para conter o avanço da doença, Mandetta e seu time enfrentam a resistência há semanas do próprio Jair Bolsonaro, que deseja ver essa política relaxada. Além do presidente, as redes bolsonaristas e os apoiadores mais radicais do presidente também não perdem oportunidade de atacar a política defendida por Mandetta e cobram diariamente sua cabeça e substituição por alguém alinhado à visão de Bolsonaro.

O ministro, certamente, errou em algumas de suas declarações, passando por cima da autoridade do presidente. Mas, é importante lembrar, Bolsonaro e seus aliados nunca hesitaram em criticar Mandetta publicamente. Como Mandetta e seu trabalho ganharam o aplauso da opinião pública, produziu-se a inusitada situação de o presidente ter dificuldades para dispensá-lo, mesmo discordando de sua linha de atuação. Tudo por causa do alto custo político que precisará pagar por isso.

Hoje, Mandetta e seus secretários já falaram na entrevista em tom de despedida. O “cansaço” misturado com a insatisfação do presidente parece ter chegado a um limite. Já parece ser fato consumado que Bolsonaro vai substituir Mandetta e, possivelmente, determinar a mudança na sua linha de atuação no combate ao coronavírus. Mas no minuto em que o ministro deixar o comando desse trabalho, tudo o que acontecer em seguida – seja fracasso ou sucesso – em relação ao coronavírus irá diretamente para a conta do presidente. E talvez o preço político seja alto demais.