Imagem da Vera Magalhães e Marcelo de Moraes

por Vera Magalhães e Marcelo de Moraes

Do Marcelo: O governo está nu

Marcelo de Moraes

Exclusivo para assinantes

Poucas vezes na história do País, a política (ou a falta dela) praticada por um governo ficou tão escancarada como na reunião ministerial comandada por Jair Bolsonaro e agora tornada pública por decisão judicial. A gravação exibe, sem filtros, in natura, o que o presidente e seus ministros pensam de verdade. Ali, ninguém está medindo palavras. E as falas feitas, em muitas ocasiões, ultrapassaram limites que não deveriam cruzados.

Reunião ministerial do governo do dia 22 de abril

Reunião ministerial do governo do dia 22 de abril Foto: Marcos Corrêa/PR

O vídeo revela o governo nu. Exatamente da maneira como o presidente e seus principais auxiliares enxergam e exercem seus papéis de homens públicos dentro da administração federal. E se a militância bolsonarista pode até se assanhar com alguns trechos nos quais o presidente é mais incisivo, o Estado democrático foi desafiado em diversos momentos dessa reunião.

O trecho em que Bolsonaro avisa que vai interferir e ponto final na questão da Polícia Federal, por não se sentir informado e em defesa de sua família, já era público, embora o presidente insista na tese sem sentido de que se referia ao general Augusto Heleno. Embora esse seja o centro da investigação e o vídeo mostre que, de fato, quis interferir, há também muitas outras coisas notáveis nas conversas.

Em determinado momento, depois de dar uma esculachada geral na equipe por não defenderem o governo, Bolsonaro fala o motivo pelo qual prega que a população toda se arme. Ele considera “fácil impor uma ditadura aqui. Facílimo”. O presidente parece se referir a alguma de suas recorrentes teorias da conspiração e fala que “povo armado não será escravizado”. Mas que plano de ditadura é esse? Povo escravizado por quem? E quer usar essa população armada contra quem?

Xingar outros políticos, como Bolsonaro fez com João Doria, Wilson Witzel e Arthur Virgílio, fica quase irrelevante diante de falas pesadas de outros ministros, como Abraham Weintraub, que chama os integrantes do Supremo Tribunal Federal de “vagabundos” e defende que sejam presos. Já Damares Alves fala de pedir a prisão de governadores e prefeitos pela sua atuação durante a pandemia do coronavírus. Exemplos e mais exemplos como esse se seguem durante toda a reunião.

Muitos pontos já estão provocando reações pesadas no Congresso. A fala de Weintraub, gravíssima, foi recebida com bastante irritação por integrantes do Supremo. E, obviamente, Bolsonaro também precisará lidar com o inquérito que o acusa de interferência na PF. Assim, a crise política seguirá por semanas afora. E justamente num momento em que o coronavírus se espalha cada vez mais, superando mais de vinte mil mortos, e com a economia em parafuso. O governo já está totalmente exposto diante de revelações muito fortes. Agora, precisará lutar também para sobreviver politicamente.