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por Marcelo de Moraes

Do Marcelo: Sob pressão, Guedes espeta presidente do BC e reabre usina de crises

Marcelo de Moraes

No meio do ano passado, durante a tensa discussão da Reforma da Previdência, o presidente da Câmara, Rodrigo Maia (DEM-RJ), perdeu a paciência com as fortes críticas do ministro da Economia, Paulo Guedes. Enquanto o Congresso tentava construir um texto possível para a reforma, o ministro mostrava pouco jogo de cintura e cobrava a manutenção de pontos inviáveis politicamente, como a capitalização, por exemplo. Irritado, Maia reclamou da situação: “O governo virou uma usina de crises permanente”, disse.

Paulo Guedes terá pela frente uma crise econômica de proporções gigantescas. Foto: Adriano Machado/Reuters

A reforma acabou sendo aprovada, mas a usina de crises nunca fechou suas portas. E ontem, com o aumento da pressão por medidas que acelerem a retomada da atividade econômica e aumentem a credibilidade do País, o ministro aumentou a tensão ao dar uma espetada no presidente do Banco Central, Roberto Campos Neto. O dirigente do BC tinha dito, mais cedo, que o Brasil precisava “conquistar credibilidade com um plano que dê uma clara percepção aos investidores de que o País está preocupado com a trajetória da dívida”. Questionado sobre a fala, Guedes reagiu duramente.

“O presidente Campos Neto sabe qual é o plano. Se ele tiver um plano melhor, peça a ele qual é o plano dele. Pergunte a ele qual é o plano dele que vai recuperar a credibilidade. Porque o plano nós sabemos qual é. O plano nós já temos”, disse.

No momento em que o Brasil lida com os efeitos devastadores da pandemia do coronavírus sobre a economia e com imensas dificuldades para destravar uma importante agenda de votações no Congresso, não ajuda em nada que o ministro da Economia e o presidente do BC se trombem publicamente. Guedes está sob forte pressão, sendo cobrado por ações concretas e por uma estratégia clara que parece ainda nebulosa. Fora o discurso habitual de que a economia está se recuperando em V, existe a percepção que o governo não sabe como vai resolver questões como a do auxílio emergencial ou do novo programa de renda básica. Se existe risco de não haver comprometimento fiscal. Se existe, de fato, empenho e articulação para tirar as reformas tributária e administrativa do papel. E se continuará eternamente o vai e vem na conversa sobre criação de um novo imposto nos moldes da antiga CPMF, algo que só piora o ambiente.

É importante lembrar que Guedes já está em atrito com o ministro do Desenvolvimento Regional, Rogério Marinho, que tem bastante influência no Congresso. Volta e meia também dispara contra os parlamentares. Abrir, agora, uma nova frente de crise com o presidente do BC – uma divergência que poderia ser resolvida no ambiente reservado dos gabinetes – não vai tornar mais fácil a tarefa de acelerar a retomada da atividade econômica brasileira.

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