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por Vera Magalhães e Marcelo de Moraes

Como fica o Mercosul com vitória de Fernández-Kirchner na Argentina

Milibi Figueiredo

A depender das recentes pesquisas de opinião, o peronista Alberto Fernández pode ganhar do atual presidente Mauricio Macri já no primeiro turno da corrida presidencial argentina, no próximo domingo, 27. Com a não reeleição de seu aliado, o governo Bolsonaro sofreria o maior revés em uma eleição em um país vizinho até o momento. Caso a vitória de Fernández, que tem Cristina Kirchner como vice, se concretize, isso impactará negativamente o Mercosul, analisam economistas ouvidos pelo BRP.

Alberto Fernández, candidato à presidência na Argentina, e Cristina Kirchner, vice na chapa.

Alberto Fernández e Cristina Kirchner. Foto: Natacha Pisarenko/ AP

Para Oliver Stuenkel, professor de Relações Internacionais da Fundação Getúlio Vargas (FGV), a falta de diálogo aberto entre os dois chefes de Estado e a retórica combativa do presidente brasileiro vão gerar ruído político constante, o que atrasaria as negociações econômicas. “Há intenção de Bolsonaro, presidente pro-tempore do Mercosul, de marcar o encontro semestral do bloco para 5 de dezembro, para que ainda possa negociar com Macri. Se ocorrer, a antecipação envia péssimo sinal para o novo governo. O debate se perde e causa paralisia no andamento de acordos”, completa.

Professor de Economia do Insper, Fernando Leite aponta a posição dogmática do chanceler Ernesto Araújo, que já defendeu retirar o Brasil do acordo entre Mercosul e União Europeia no caso de vitória da chapa de Fernández, como um motivo para enfraquecimento do bloco. Outra razão seria a falta de interesse, já presente, de Bolsonaro em fortalecer a organização. “Frentes novas para adensar o comércio com a Argentina e fortalecer o Mercosul saem completamente da agenda”, diz.

Quanto ao acordo do agrupamento sul-americano com a União Europeia, há divergência entre os pesquisadores. “Há muita coisa em jogo. As negociações já se estendem por vinte anos e é o acordo econômico mais importante celebrado nas últimas três décadas”, avalia José Carlos Candia, professor de relações internacionais da USP. Ele aposta em tom mais moderado entre os dois governos para não arriscar a não aprovação do acordo pelo Parlamento europeu.

Por outro lado, Stuenkel aponta que assessores ligados a Fernández se opõem a concluir o acordo da forma em que está, enquanto os europeus são enfáticos em afirmar que, para eles, se chegou a um limite. “Mas essa questão é só um dos obstáculos. O comportamento do governo brasileiro muniu os opositores do acordo e, politicamente, ratificar resolução com o País é complexo”.

A manutenção de alianças mais específicas, como a automotiva – que teve a liberação completa do setor até 2029 assinada pelo ministro da Economia, Paulo Guedes, e o ministro da Produção e Trabalho de Macri – depende de forças internas do eventual governo peronista, de acordo com Stuenkel. “Há negociação em andamento entre um núcleo mais pragmático e outro mais radical. Levará alguns meses para que essa dinâmica, que determina que tipo de Argentina o Brasil vai lidar, se estabeleça”.

Candia diz que é possível que haja um revival de uma situação do governo Néstor Kirchner, que em 2004 impôs barreiras contra eletrodomésticos brasileiros, mesmo nivelado ideologicamente com Lula, presidente à época. Numa crise cambial, elevar barreiras de importação pode ser medida adotada pelo país vizinho para conter fuga de dólares.

Qualquer que seja o resultado das urnas, o presidente eleito vai precisar lidar com uma inflação que pode chegar a 55% em 2019, segundo previsões do Banco Central, e dívidas que ultrapassam os U$ 100 bilhões. A moratória é uma possibilidade na nação em que, em suas crises cíclicas, já recorreu ao calote oito vezes. Outra recorrência na história argentina: a relação com o Brasil sempre foi atribulada, mesmo com governos alinhados politicamente.