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por Vera Magalhães e Marcelo de Moraes

Eleição nas Redes: A campanha eleitoral no tempo do isolamento social

Marlos Ápyus

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Na última sexta-feira, mesmo com o acréscimo de 729 óbitos por covid-19 aos dados do Ministério da Saúde, apenas um terço do país se manteve em isolamento social. Desta forma, a taxa regrediu a um nível que não se observava desde 17 de março, data em que foi confirmada a primeira vítima fatal do novo coronavírus no Brasil.

Em São Paulo, o piso tem se mantido entre 40% e 41% de adesão ao confinamento. Mas, na capital, o Datafolha ouviu de 3 em cada 4 entrevistados que as crianças deveriam continuar longe das aulas presenciais até pelo menos o próximo novembro.

O clima de “faça o que eu digo, mas não faça o que eu faço” há de explicar a decisão dos candidatos a prefeito da maior cidade do país, que dedicaram o último domingo às ruas. Todavia, não há de justificar.

Quando o Congresso Nacional promulgou a PEC que adiava as eleições municipais para novembro, o Brasil fechou a semana epidemiológica com 7.195 novos óbitos notificados. Ontem, quando a campanha eleitoral se iniciou oficialmente, a 39ª semana epidemiológica havia se encerrado com o acréscimo de outras 4.874 mortes às estatísticas.

É, sem dúvida, um cenário melhor, mas ainda trágico demais para ser negligenciado. Estatisticamente, a situação está tão ruim quanto a das primeiras semanas de maio, período em que até metade da população brasileira (e 59% dos paulistanos) buscou se refugiar da pandemia.

Não é como se não houvesse alternativas. Se a propaganda no rádio e na TV só será permitida em inserções pontuais num curto período entre 9 de outubro e 12 de novembro, a internet há muito se converteu no ambiente em que o brasileiro mais consome informações. Se, nos últimos pleitos, foi usada para ataques a adversários, alimentando uma polarização que deixou a política mais tóxica, houve um primeiro momento em que aproximou os eleitores dos eleitos, como na disputa que levou Dilma Rousseff ao Palácio do Planalto em 2010, ou mesmo na que levou Barack Obama à Casa Branca em 2008.

Claro, o momento (e o algoritmo) era outro. Mas nem 2020 é 2018. Por obra da crise sanitária ainda em curso, as campanhas virtuais evoluíram de mal para mal necessário. Se, antes, o debate virtual contou com o protagonismo dos candidatos mais controversos; agora, há de ao menos ser o foco daqueles que veem na saúde uma prioridade real. Caso a lógica se confirme, pode ser um primeiro passo para o desmonte do que vem sendo chamado de “máquina do ódio“.