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por Vera Magalhães e Marcelo de Moraes

Eleição nas Redes: A eleição de 2020 como trampolim para 2022

Marlos Ápyus

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Com mais de 5 mil cidades de realidades bem distintas, é natural que as eleições municipais no Brasil se guiem por questões locais. Nas maiores capitais, contudo, o debate tem se contaminado pela polarização que dominou as campanhas presidenciais da última década.

O prefeito de São Paulo, Bruno Covas e João Doria durante convençõa do PSDB

Bruno Covas e João Doria durante convenção do PSDB Foto: Divulgação/PSDB

Em São Paulo, por exemplo, mesmo quando Guilherme Boulos (PSOL) reclama do alto custo da revitalização do Vale do Anhangabaú, a mensagem se foca na tímida arborização do projeto, o que dialoga com as críticas à agenda ambiental do governo Bolsonaro. Já quando Arthur do Val (Patriotas), que mira o voto bolsonarista, reclama que a prefeitura retira jardins verticais do Minhocão, a mensagem coloca em dúvida o poder de gestão de Bruno Covas.

Mais à esquerda, o identitarismo tem dado o tom, com defesas das candidaturas de mulheres, casos de Manuela d’Ávila (PCdoB) em Porto Alegre, e Marília Arraes (PT) em Recife, ou mais especificamente de mulheres negras, casos de Denice Santiago (PT) em Salvador e Áurea Carolina (PSOL), em Belo Horizonte, além de Renata Souza (PSOL) e Benedita da Silva (PT), no Rio de Janeiro.

Se Benedita se apresenta como a defensora de um legado de Lula, enfrentará Luiz Lima (PSL), deputado federal endossado como um “soldado do presidente Bolsonaro”, estratégia semelhante à de Bruno Engler (PRTB) em Belo Horizonte. Mas essa é uma saída a ser explorada com cautela. Em São Paulo, por exemplo, enquanto 57% prometem jamais votar em um candidato apoiado pelo ex-presidente, exatos 64% negam voto também a qualquer nome referendado pelo atual mandatário da nação.

A polarização tantas vezes abre espaço à bipolaridade. Enquanto a esquerda ataca Celso Russomanno (Republicanos) por enxergá-lo como uma versão paulistana de Marcelo Crivella (Republicanos), parte da direita ataca o prefeito carioca por no passado ter apoiado Dilma Rousseff; e o líder nas pesquisas em São Paulo por ter Marcos da Costa (PTB), autor de um manifesto contra Bolsonaro, como vice. Situação parecida com a de Bruno Reis (DEM) em Salvador, ora criticado como um nome ligado à esquerda, ora apontado como alguém que já apoiou Aécio Neves — que está longe de ser um nome progressista.

Se tem influenciador direitista, em apoio a Filipe Sabará (Novo), denunciando o que seria uma infiltração esquerdista no partido Novo, há influenciador esquerdista posicionando o já ex-candidato a prefeito como “extremista de direita“. Alguns perfis mais reacionários, inclusive, têm se dedicado a apresentar listas de candidatos conservadores —boa parte inexpressiva— nas praças mais variadas.

A pandemia dá as caras principalmente em Belo Horizonte, onde Alexandre Kalil (PSD) ruma tranquilo à reeleição, grande parte pelo trabalho realizado no combate ao novo coronavírus. Mesmo assim, não falta quem se alinhe ao Palácio do Planalto atacando como exageradas e até “ditatoriais” as medidas em benefício do isolamento social.

Nada disso significa que os temas aqui garimpados sejam desimportantes. Muito pelo contrário. Mas a dedicação a disputas ideológicas rende a incômoda sensação de que mais uma vez as eleições municipais estão sendo exploradas como trampolins para voos maiores.

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