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por Vera Magalhães e Marcelo de Moraes

Eleição nas Redes: A semana mais cara das campanhas virtuais

Marlos Ápyus

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A internet demonstra força para transformar cenários políticos desde que Barack Obama conquistou a Casa Branca, ainda em 2008. Mas o Brasil não tardou a experimentar impactos semelhantes. Dilma Rousseff tornou-se presidente da República por uma soma de fatores que incluía um bom diálogo com o que chamavam na época de “blogosfera”. E Marina Silva, naquele mesmo 2010, superou os 19 milhões de votos por uma campanha enxuta que se focou em agitações virtuais, com direito a um neologismo que pegou: “twitaço”.

Pela capacidade de otimizar recursos, as campanhas virtuais costumam ser a principal aposta dos candidatos com menos estrutura. E Jair Bolsonaro é talvez o melhor exemplo no mundo de político que, sem capital para uma disputa majoritária, usou as redes sociais para somar apoios e aniquilar as chances de adversários.

Há, claro, questionamentos justos sobre os métodos explorados. Tanto que, nos últimos 2 anos, a legislação eleitoral brasileira ousou avançar contra o que passara uma década evitando. No caso, a falta de limites das plataformas.

Até o momento, é possível afirmar que os efeitos foram positivos, ainda que o problema siga longe de uma solução. Pois a quantidade de desinformação segue em volume muita acima do tolerável, e os ataques rasteiros continuam. Mas as ações estão um pouco mais transparentes, o que naturalmente inibe a falta de escrúpulos de alguns candidatos.

No Facebook, por exemplo, é possível confirmar que, ao custo de mais de R$ 49 milhões, os serviços ligados à marca (o que inclui também o Instagram) veicularam quase 600 mil anúncios sobre temas sociais, eleições ou política brasileira desde agosto. São Paulo é o Estado que responde pela maior fatia do investimento, mas a disputa em Fortaleza chama a atenção, com quatro dos candidatos entre os dez que mais abriram a carteira para Mark Zuckerberg até o momento.

A cifra nacional é pequena em comparação com o que acontece nos Estados Unidos, onde as campanhas de Donald Trump e Joe Biden gastaram o equivalente a mais de um bilhão de reais de janeiro a novembro. Mas tende a aumentar muito na reta final do primeiro turno, quando o desespero bate, e campanhas propositivas percebem a necessidade do confronto — que o diga Guilherme Boulos, que disputa com Celso Russomanno e Márcio França uma vaga no segundo turno da capital paulista.

Uma busca por “Bolsonaro” confirma que os maiores investimentos em anúncios ocorreram nas semanas que antecederam os dois turnos de 2018. Faltando sete dias para a votação de 2020, as menções ao sobrenome presidencial só crescem, com 850 anúncios ativos, quase sempre da parte de candidatos nanicos que almejam o voto bolsonarista. Mas também da parte de opositores do presidente da República. Desde 26 de outubro, por exemplo, uma postagem de Lindbergh Farias já foi vista mais de um milhão de vezes. Nela, o candidato promete que, como vereador carioca, lutará para que o Rio de Janeiro, “tão abandonado por Crivella e Bolsonaro“, volte a ser feliz. Para um alcance tão grande, o ex-senador não precisou investir mais do que R$ 6 mil.

Direita x esquerda

A exemplo do que ocorreu há dois anos, a polarização tem sido a grande aposta. As necessidades das maiores capitais foram colocadas de lado em benefício de posicionamentos ideológicos, ora conservadores, ora liberais, ora antifascistas. Há, claro, algumas mensagens sobre temas típicos dos municípios, mas só costumam engajar quando servem para ampliar a rejeição de algum prefeito que mira a reeleição — vide a cara reforma que a gestão de Bruno Covas em São Paulo promoveu no Vale do Anhangabaú.

Vale registro também o negacionismo de muitos militantes, quase todos bolsonaristas, que garimpam votos criticando as necessárias medidas sanitárias para conter o avanço do coronavírus. Os ataques atingem até qualquer adversário que não endosse tratamentos sem qualquer comprovação científica.

No outro polo, houve muita discussão sobre a formação de uma “frente ampla” que unisse as esquerdas em benefício de um projeto que casaria votos ideológicos nas principais capitais. Em Belém, uma iniciativa do tipo lidera a disputa. Nas demais praças, as divergências locais falaram mais alto, fazendo com que o discurso só se unifique na defesa de pautas identitárias — em defesa das mulheres, da população LGBT, ou no ataque ao racismo estrutural da sociedade.

Se nada disso der certo, e o resultado da eleição americana fortalece a sensação de que a era dos outsiders pode estar se encaminhando para um fim breve, todo esse trabalho há de servir de alicerce para a eleição geral de 2022, essa sim aberta a debates mais ideológicos, principalmente de natureza legislativa. Pois não falta no Brasil quem, ganhando ou perdendo, use as eleições municipais para voos mais altos dois anos depois. E não há motivos para achar que em 2020 tenha sido abandonada.

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