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por Vera Magalhães e Marcelo de Moraes

Eleição nas Redes: O risco da ‘terceirização do caixa dois’

Marlos Ápyus

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Ainda em agosto, uma pré-candidata a vereadora por São Paulo publicou uma foto com Jair Bolsonaro. De imediato, passou a ser duramente criticada nas redes sociais. Uma semana depois, à medida os ataques se intensificaram, a própria garota disse ter sido alvo de ameaças em um grupo no WhatsApp. Com algum atraso, o caso virou nota em um jornal de circulação nacional, que rapidamente se converteu em mais uma postagem no Instagram da estudante. No dia seguinte, o grupo empresarial Brasil 200 compartilhou para quase 200 mil seguidores uma mensagem semelhante, misturando a notícia, a foto que deu origem à polêmica e críticas à esquerda. O instituto foi além e pagou para que aquele conteúdo fosse impulsionado até mesmo a quem não seguia o perfil.

O nome da vítima é aqui preservado para que os ataques não voltem. Espera-se que a representação criminal com a qual a candidata promete entrar comprove a veracidade dos relatos. Mas, pelo próprio Facebook, já é possível obter detalhes do anúncio pago pelo Brasil 200.

Para uma associação civil encabeçada por alguns dos maiores empresários do país, o valor é irrisório, menos de cem reais. Mas os cinco dias de veiculação resultaram em mais de 3 mil impressões, com o alcance potencial de 50 mil a 100 mil pessoas. Mesmo com o Brasil 200 mantendo representações em todos os estados da federação, os administradores do perfil restringiram o anúncio a São Paulo, ou o mesmo estado cuja capital pode vir a ter a jovem como vereadora.

Em O Filtro Invisível, best-seller lançado em 2011, o ativista Eli Pariser temia a dificuldade que jornalistas e candidatos teriam para monitorar as informações difundidas por anúncios microdirecionados pela publicidade digital. Em A Máquina do Ódio, livro de 2020, a jornalista Patricia Campos Melo constatou que, na eleição brasileira de 2018, “comprar de fornecedores serviços digitais que beneficiam candidatos passou a ser um expediente de doar por baixo do pano. Em vez do clássico caixa dois, em que o dinheiro doado não é declarado ao TSE, inaugurava-se a terceirização do caixa dois“.

Pelas regras em vigor para a eleição municipal de 2020 no Brasil, todos os perfis que os candidatos possuem nas redes sociais devem ser informados no registro da candidatura. O impulsionamento, por sua vez, só pode ser feito pela conta oficial do candidato, partido ou coligação, e diretamente com o serviço que veiculará o anúncio, sendo vedada a contração de empresas para esse fim.

Do início de setembro até o drama da garota virar notícia, ela ganhou no Instagram uma média diária de 18 seguidores. No momento em que a própria candidata e o Brasil 200 exploram o caso, o perfil ganhou mais de mil em três dias. Hoje, conta com 16 mil assinantes, ou a mesma quantidade que Sâmia Bomfim, a vereadora eleita com menos votos em 2016, somou ao entrar no segundo ano de mandato, já em 2018.

De 4 de agosto a 21 de setembro, o Brasil 200 investiu R$ 2.178 em anúncios sobre temas sociais, eleições ou políticas. Em igual período, a Brasil Paralelo, produtora que se acostumou a reescrever a história do país com base em depoimentos de militantes como Olavo de Carvalho, já investiu quase R$ 320 mil em propaganda das próprias produções. Dado o potencial certeiro de ferramentas que microdirecionam a publicidade, o valor já não soa irrisório.

Agora é possível ao menos checar alguns desses números e peças impulsionadas em redes abertas, como Facebook e Instagram. É um avanço. Mas a situação segue obscura em redes criptografadas, como WhatsApp, Messenger e Telegram. Há muito trabalho a ser feito. Principalmente da parte de quem fiscaliza o pleito.