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por Vera Magalhães e Marcelo de Moraes

Eleições nas Redes: A aposta esquerdista na política identitária

Marlos Ápyus

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Mesmo com quase 5 milhões de eleitores, a disputa na Georgia caminha para o fim com Joe Biden superando Donald Trump em pouco mais de dez mil votos. Margem tão estreita tem sido usada como prova de que o ativismo de Stacey Abrams fora primordial para que um estado historicamente republicano optasse por um presidente democrata. Estima-se que 800 mil eleitores suprimidos pelo sistema tenham se registrado em decorrência dos esforços da advogada. De tal forma que, em 2020, o partido recebeu quase 600 mil votos a mais em relação à disputa de 2016.

A política identitária integra a lista de explicações para o sucesso de Biden. Como o eleitorado de Trump concentrava-se em um recorte muito específico da população (brancos de baixa renda que moram longe demais das capitais), o opositor preferiu mirar a diversidade. Era uma forma de fazer com que as múltiplas etnias e gêneros que conquistaram direitos nos Estados Unidos se sentissem representadas nas urnas. E deu tão certo que findaria na maior votação da história.

No Brasil, ainda que por motivos distintos, a esquerda vem adotando política semelhante nas maiores capitais. Em Belo Horizonte, por exemplo, Áurea Carolina promete levar a bandeira feminista à prefeitura. Em Fortaleza, Luizianne Lins pede o voto feminino para superar os dois candidatos homens que, neste momento, lideram a disputa. Em Porto Alegre, Manuela D’Ávila pede para se tornar a primeira prefeita da capital gaúcha, e resgata até o “machistômetro“, um quadro em que, há quatro anos, lia mensagens preconceituosas que se espalhavam nas redes sociais.

Porque, claro, nem tudo são flores. Alguns críticos tentam ridicularizar Manuela D’Ávilla espalhando fotos antigas, de uma época que a candidata se encontrava bem acima do peso atual. Benedita da Silva, que segue com chances de ir ao segundo turno no Rio de Janeiro, teve o nome retirado da lista de personalidades negras da Fundação Palmares ainda no início da campanha. E Orlando Silva, mesmo patinando nas pesquisas em São Paulo, disse ter sido alvo de ataques racistas nas redes sociais. Esse último caso, inclusive, findou em uma onda de solidariedade até mesmo de adversários.

Mas identitarismo é tema delicado, nem todo mundo sabe como lidar com minorias. Em São Paulo, chamou atenção o caso de Celso Russomanno, que entrou na onda das redes bolsonaristas, e chamou de vandalismo uma ação da prefeitura de São Paulo pelo Dia da Consciência Negra. Provocado a se explicar sobre as críticas aos punhos fechados que surgiam em alguns semáforos, alegou não ver diferença entre brancos e negros argumentando que fora “criado por uma mãe de leite, negra“.

A declaração rendeu fortíssimas críticas nas redes sociais. Talvez por isso, mas não só por isso, o candidato de Jair Bolsonaro já surja nas pesquisas com a intenção de votos menor do que a medida na véspera da disputa de 2016, quando terminou em terceiro lugar.