Imagem da Vera Magalhães e Marcelo de Moraes

por Marcelo de Moraes

Eleições nas Redes: A corrida ao centro possui obstáculos

Marlos Ápyus

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Em 1929, Harold Hotelling defendeu em artigo que, pela lógica de mercado, os produtores buscam ao máximo reduzir as diferenças para os próprios concorrentes. Segundo o estatístico, seria uma forma de seduzir a clientela do adversário. Mas a “lei de Hotelling” impacta também a ciência política, principalmente quando há apenas duas opções na cédula de votação.

Mesmo na eleição brasileira de 2018, quando a polarização deu o tom da disputa, o fenômeno era observável. Pois, enquanto Jair Bolsonaro (à época no PSL) se dizia liberal, Fernando Haddad (PT) afirmava ser social-democrata. Ambos os esforços serviam de aceno a eleitores mais de centro, que iniciaram a corrida prometendo votos a nomes como Geraldo Alckmin (PSDB) e Marina Silva (Rede).

É também o que se percebe na eleição deste ano. Guilherme Boulos (PSOL) deixou no passado a sisudez quase sindicalista de uma liderança do MTST para apresentar uma versão mais sorridente de si. Se Manuela D’Ávila possui alguma tatuagem, segue oculta nas imagens trabalhadas pela candidata do PCdoB, que aderiu a um figurino bem mais conservador. Mesmo Eduardo Paes (DEM), que herda no segundo turno os votos da aguerrida esquerda carioca, não se furta a dizer que, como prefeito do Rio de Janeiro, não poderá abrir mão de um diálogo com o controverso presidente da República.

A corrida ao centro até desagrada os mais radicais, mas não chega a sacrificar votos, uma vez que o temor de uma vitória do outro polo amarra o apoio do militante mais purista. E, por isso, candidaturas como a de Boulos insistem tanto num discurso mais moderado que a todo tempo recorre à palavra “esperança”.

Falta, no entanto, combinar com os russos. Ou, ao menos, com o eleitor brasileiro que ainda valoriza a revolução russa.

Com o bolsonarismo derrotado em primeiro turno, a esquerda está livre para sozinha pautar debates nas redes sociais. Diariamente, o candidato do PSOL amanhece no WhatsApp distribuindo áudios nos quais sugere que a militância trabalhe pela virada de votos. “A gente precisa conversar com todo mundo: familiares, amigo, vizinho, todo mundo. Todo voto é importante, vai fazer a diferença“, afirma Boulos. No último sábado, por exemplo, distribuiu um vídeo de dois minutos em que fala diretamente à comunidade judaica de São Paulo.

Nas redes sociais, contudo, os militantes seguiram em direção oposta, carimbando de fascista basicamente qualquer nome que não endosse totalmente a agenda ideológica do grupo. Houve até quem externasse o desejo de ver Bruno Covas (PSDB) derrotado pelo voto e pelo câncer.

Em outro caso emblemático, Tabata Amaral anunciou o apoio prontamente agradecido e reverberado por Boulos. Mas nem isso livrou a deputada federal de duras críticas por, no ano passado, ter votado a favor da Reforma da Previdência.

A vitória de Joe Biden nos Estados Unidos permitiu ao Brasil discutir a necessidade de se formar frentes amplas para derrotar o radicalismo de algumas forças políticas. E a lógica do sistema até incentiva coalizões no segundo turno, quando as opções se resumem a dois, formato ideal para que a lei de Hotelling faça mais sentido. Os militantes virtuais, no entanto, reagem menos a desejos de marqueteiros, e mais aos instintos mais primitivos.

Por isso, vale ficar atento às agitações na web. Elas podem servir tanto a uma vitória esmagadora, como a um fracasso retumbante. Bolsonaro que o diga.