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por Vera Magalhães e Marcelo de Moraes

Eleições nas Redes: A imprensa e o Zepelim

Marlos Ápyus

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O último Fique de Olho buscou antever os acontecimentos que sucederiam a votação para presidente dos Estados Unidos. Lá, é dito que as pesquisas retratavam uma situação muito favorável a Joe Biden. Mas fatores externos, como o avanço da covid-19, jogadas polêmicas, como as iniciativas desesperadas de Donald Trump, e peculiaridades do sistema eleitoral americano, como o voto antecipado, poderiam transformar em novela o que, no Brasil, não passaria de um longa-metragem.

Veio a apuração. E com ela, a novela. Com três swing states conquistados logo nas primeiras horas por Trump, a aposta na reeleição ganhou força. Mas a chance de a disputa se encerrar ainda na noite de ontem se esgotava. Com a vitória de Biden confirmada no Arizona, e o ajuste na previsão da Georgia, que agora conta com um favoritismo democrata, o risco de um segundo mandato para o atual presidente deu vez à quase certeza de que a Casa Branca acolherá em breve o 46º mandatário da maior democracia do mundo.

As reviravoltas funcionam como ótimas peças de entretenimento. Ou, a depender da torcida, estresse. Mas não surpreendem. Diferente de há quatro anos, quando de fato a imprensa tratou a vitória de Hillary Clinton como favas contadas, não faltou alerta em 2020 de que favoritismo não era certeza de vitória. Os próprios institutos não se cansaram de apontar os riscos dos tais fatores externas que as pesquisas não conseguiriam medir.

Mesmo assim, toda a situação complexa tem sido explorada nas redes sociais para ataques à credibilidade da imprensa. Notícias de 2016 vêm sendo compartilhadas como se de 2020 fossem, o que leva à sensação de que alguns veículos cometeram erros na cobertura, quando na verdade noticiavam estados que, há 4 anos, foram de fato vencidos por Trump.

E nem a eleição brasileira ficou de fora. Por aqui, grupos organizados que militam por candidatos que não decolaram, ou que aos poucos perdem a esperança numa vaga do segundo turno, “gritam” que jornalistas e institutos não merecem confiança. Motivo? A confusão observada nos Estados Unidos.

O que é injusto por tudo já explicado mais acima, mas principalmente pelo fato de a eleição americana depender de uma longa parceria com a imprensa mais séria. Sem Justiça Eleitoral, a contagem de votos vem sendo feita há 172 anos pela Associated Press. E as projeções que encurtam o longo processo de contagem de votos impressos têm a assinatura de veículos como CNN, New York Times e até a controversa Fox News. Em outras palavras, a mesma imprensa que apostou em uma vitória de Clinton foi a que permitiu a Trump, já na madrugada seguinte, dormir como presidente.