Imagem da Vera Magalhães e Marcelo de Moraes

por Marcelo de Moraes

Eleições nas Redes: A volta da esquerda aos debates virtuais

Marlos Ápyus

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Os grandes acontecimentos que se sucederam à reeleição de Dilma Rousseff, incluindo o processo de impeachment e as duas eleições seguintes, deixaram a sensação de que a esquerda não mais teria condições de dominar os debates virtuais. O que destoava do período anterior, quando o bolsonarismo ainda inexistia, e o PT era capaz de pautar basicamente qualquer narrativa.

Entretanto, na eleição de 2020, em especial no segundo turno, o jogo virou, grande parte pelo fracasso precoce das principais apostas de Jair Bolsonaro. Como os nomes mais de centro preferem se arriscar na mídia tradicional, a web ficou livre para as candidaturas mais à esquerda ditarem o ritmo. O que faz uma enorme diferença numa etapa em que o “tempo de TV” é dividido igualmente entre os finalistas.

Em São Paulo, aliados de Bruno Covas até tentaram popularizar no WhatsApp vídeos que relembram uma versão bem mais radical do adversário. Mas o prefeito conseguiu ir pouco além disso. Em resposta, a campanha de Guilherme Boulos tinha seis canais pelo quais podia oferecer argumentos e direcionamentos aos eleitores mais engajados. E, exceto pelo TikTok, cuja linguagem é de fato nova, explorava muito bem todos eles.

Nas redes, o PSDB quase não possui apoiadores de peso. Ao contrário do PSOL, cuja militância está sempre disposta a protestar contra qualquer erro da imprensa, ou mesmo a reverberar pautas de interesse dos candidatos da sigla. Em especial, aquelas que constrangem adversários — como, por exemplo, o controverso vice do prefeito que busca a reeleição em São Paulo.

Engajada na campanha de Marília Arraes, a esquerda também não tem dado sossego a João Campos, atacado pelo passado de apoio a Aécio Neves, ou pelo presente em que um secretário do PSB convoca servidores da prefeitura de Recife para atuar na campanha do filho do finado Eduardo Campos. Até um meme pelo qual usuários elaboram manchetes absurdas envolvendo o namorado de Tabata Amaral vem atingindo um alcance acima da média — e pode estar confundindo muito eleitor que não captura a ironia da chacota.

Em Porto Alegre, no entanto, é a esquerda quem reclama de “fake news”. Alternando um visual conservador com uma linguagem mais jovem, Manuela D’Ávilla não se cansa de reclamar de ataques sofridos da parte da campanha de Sebastião Melo, mas não na web, e sim nas ruas.

Em Belém, há até um candidato bolsonarista com real chance de vitória. Mas a atuação dos apoiadores da família Bolsonaro em favor do Delegado Eguchi não tem feito frente ao alcance muito maior atingido por Edmilson Rodrigues, nome do PSOL que conseguiu formar uma rara frente esquerdista ainda no primeiro turno.

Mesmo no Rio de Janeiro, onde a esquerda caiu em 15 de novembro, há uma agitação que beneficia a candidatura de Eduardo Paes sem necessariamente pedir votos ao candidato do DEM. Ao citar o número a ser depositado na urna, tem sido comum que os militantes troquem o nome do ex-prefeito por “fora, Crivella”.

Se tudo isso resultará em sucesso no próximo do domingo, só a apuração poderá confirmar. É certo, contudo, que as redes sociais já não são aquelas que provocaram o tsunami eleitoral de 2018. E Jair Bolsonaro precisará suar um pouco mais a camisa para garantir a reeleição em 2022.

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