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por Vera Magalhães e Marcelo de Moraes

Eleições nas Redes: Apagando fogo com a gasolina da desinformação

Marlos Ápyus

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Em menos de 24 horas, Marcelo Crivella foi alvo de merecidas críticas por xingar João Doria de “viado“, negar que Eduardo Paes “gosta de mulher“, e afirmar que o interesse do PSOL na secretaria de Educação poderia fazer com que o Rio de Janeiro aceitasse “pedofilia na escola, no ensino infantil“.

A baixaria tem sido interpretada como desespero da parte do prefeito, que surge nas pesquisas com menos da metade da intenção de votos do adversário. Mas uma expressão em inglês oferece uma explicação menos orgânica ao fenômeno: firehose of falsehood.

Em tradução livre, firehose significa “mangueira de incêndio”. E falsehood, “mentira”. Em outras palavras, a expressão remete a uma situação lúdica em que tenta-se controlar um incêndio com um forte jato de desinformação — o que, claro, resulta em chamas ainda maiores.

Creditada a Lenin, a técnica segue em uso por outro Vladimir, o Putin, que inunda o leste europeu com um grande volume de desinformação gerada por veículos pseudojornalísticos como forma de fazer a opinião pública concordar com as controvérsias da política externa da Rússia. E tem em Steve Bannon alguém que a importa para nações mais a oeste, como Reino Unido, Estados Unidos e Brasil.

Quando bem aplicada, causa a falsa impressão de que há um consenso sobre temas polêmicos que beneficiam aliados e prejudicam inimigos. A lógica das redes sociais, ambiente no qual a desinformação é distribuída sem custos, mas a notícia apurada costuma pedir a assinatura de um jornal tradicional, cai como uma luva nos interesses de quem aposta na estratégia. A tradição da imprensa de registrar o absurdo sem contestá-lo também contribui para o sucesso da iniciativa. Assim como a indignação de quem protesta contra a perversidade, conforme apontou Cristina Tardáguila, diretora adjunta da International Fact-Checking Network, sobre o caso mais barulhento.

De fato. Por mais que as redes bolsonaristas tenham endossado o ataque de Crivella a Doria, uma breve ronda confirma que, ao menos no Twitter, a grotesca fala sobre pedofilia ganhou mais alcance da parte dos vários influenciadores que lutam contra a reeleição do prefeito carioca.

No Facebook, enquanto um milhão de usuários interagem com a página de Crivella, menos de 400 mil se engajam com a de Paes. No Google, Paes continua como o candidato mais pesquisado nos últimos 7 dias. Mas, nas últimas 24 horas, certamente por força das polêmicas, Crivella já surge em primeiro lugar.

Assim como a covid-19, ainda não há remédio cientificamente comprovado contra esse mal. Mas alguns analistas arriscam sugestões, como evitar ampliar o alcance da desinformação mesmo ao refutá-la, ou focar-se mais em combater o estrago provocado pela mentira do que a mentira em si.

Outro caminho é educar digitalmente a população sobre as engrenagens da máquina do ódio. Pois, como explicou Tardáguila, é preciso silenciar a falsidade. Por vezes, reportando-a às plataformas digitais.