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por Vera Magalhães e Marcelo de Moraes

Eleições nas Redes: Batalhas de narrativas com pesquisas e ‘tracking’

Marlos Ápyus

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Ontem, em mais uma rodada da pesquisa Ibope, Celso Russomanno confirmou a tendência apontada por outros institutos, e surgiu com menos da metade da intenção de votos que tinha no início de outubro. Hoje, o candidato de Jair Bolsonaro na disputa pela prefeitura de São Paulo conseguiu na Justiça, em decisão de caráter provisório, impedir que uma nova rodada do Datafolha viesse a público.

O movimento ocorre em sincronia com reclamações de bolsonaristas que, diante das dificuldades medidas até aqui em múltiplas praças, pregam nas redes sociais que as pesquisas eleitorais não seriam confiáveis. Nesse duelo de narrativas, até o contestado sucesso de Joe Biden chegou a ser explorado como exemplo de que os institutos não estariam conseguindo enxergar a realidade, mas a confirmação da vitória até mesmo pela trumpista Fox News fragilizou a tese.

A guerra bolsonarista contra as pesquisas tem início na disputa municipal de 2016, única na qual Jair Bolsonaro amargou uma derrota, uma vez que Flávio Bolsonaro terminaria na quarta posição na disputa pela prefeitura do Rio de Janeiro. Contudo, enquanto os institutos projetavam na véspera uma média de 9% dos votos válidos para o então deputado estadual, o Zero Um saiu das urnas como o preferido de 14% dos eleitores que se pronunciaram — a apenas cinco pontos percentuais de uma vaga no segundo turno.

Quando, um mês depois, contrariando as expectativas da imprensa de todo o mundo, Donald Trump derrotou Hillary Clinton, veio a certeza de que a realidade estava muito distante daquilo que o jornalismo conseguia enxergar. O que tinha um fundo de verdade. Mas já não pode ser repetido sem ignorar avanços ocorridos desde então, incluindo a previsão acertada de que Biden seria o 46º presidente dos Estados Unidos.

Rastreamento

A negação da realidade, contudo, explora todos os caminhos possíveis. E o “tracking” é um que as redes sociais brasileiras conhecem há tempos. De monitoramento para consumo interno de algumas campanhas, magicamente vazam para alguns influenciadores, que tantas vezes contam uma história distinta da registrada no noticiário — ou no próprio TSE.

O Twitter arquiva até hoje alguns desses momentos:

2010

O “tracking” supostamente media um empate na véspera, mas Dilma Rousseff se tornaria presidente derrotando José Serra por 12 pontos percentuais de diferença.

2012

De fato o trio liderava a disputa pela prefeitura de São Paulo, mas Celso Russomanno terminaria quase 8 pontos percentuais distante do segundo turno.

2014

Faltando dois dias para o segundo turno, os supostos “tracking’s” anteviam uma vitória de Aécio Neves que, como se sabe, nunca veio.

2016

O “tracking” até acertou que, quatro dias depois, Fernando Haddad terminaria em segundo lugar. Mas não percebeu que a disputa pela prefeitura de São Paulo se encerraria ainda em primeiro turno.

2018

O “tracking” antevia uma virada de Fernando Haddad, mas Jair Bolsonaro realmente se tornaria presidente do Brasil cinco dias depois.

2020

Para este ano, Márcio França é um dos candidatos que têm apostado na divulgação de “trackings” que nem à imprensa chegam. No monitoramento, claro, a pessoa que o divulga está muito empolgada com o resultado, como ocorreu em todos os exemplos anteriores.

Talvez a reclamação de Russomanno contra o Datafolha tenha algum sentido, e isso a Justiça poderá confirmar em breve. Mas, no geral, a versão mais firme continua sendo aquela contada pelos meios tradicionais, sejam eles os institutos de pesquisa, ou mesmo a imprensa. Na dúvida, basta confrontar o disse o profissional que cobre as eleições com o que disse o militante.