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por Vera Magalhães e Marcelo de Moraes

Eleições nas Redes: Mais do que mil palavras

Marlos Ápyus

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Durante o debate entre Bruno Covas e Guilherme Boulos na noite de ontem, o clima respeitoso com que a discussão se desenvolveu foi o que mais chamou a atenção das redes sociais. Afinal, um dia antes, declarações mal calculadas de ambos elevaram a temperatura da web a níveis inéditos nesta eleição. Mas, desde então, os candidatos a prefeito de São Paulo trabalham valores mais positivos, como se concordassem que os votos que faltam para a vitória virão do eleitor mais moderado.

A mudança mais perceptível vem do representante do PSOL. O “Boulinhos Paz & Amor” parece reprisar o “Lulinha Paz & Amor” até no lema. Se, no passado, o petista prometia que a “esperança” venceria o “medo”, o psolista já publicou na campanha 22 mensagens (apenas no Twitter) em que pregava a “esperança” como alternativa ao “ódio”.

A transformação de Boulos não se dá apenas no discurso, mas também no visual. E está perfeitamente registrada na própria página do Facebook. Inaugurada em dezembro de 2014, apresenta uma espécie de líder sindical sisudo que, só aos poucos, se permite sorrir e vestir outras cores além do vermelho. Com o correr dos anos, perde peso e finalmente se transforma numa pintura colorida inspirada na da campanha que surpreendentemente levou Barack Obama à Casa Branca.

Guilherme Boulos, de 2014 a 2020.

Mas Covas, ainda que por motivos distintos, também soube reconstruir a própria imagem em fenômeno igualmente registrado no Facebook. Com peso em excesso desde a infância, aderiu a um estilo de vida mais saudável pouco antes de assumir a prefeitura e a calvície. No que um câncer coloca a própria vida em risco, o que soava vaidade ganha ares de batalha por sobrevivência. Nas imagens mais recentes, continua sorrindo, mas sob uma máscara, como se garantisse ao eleitor que o principal compromisso se dá com a saúde da própria população.

Bruno Covas, de 2011 a 2020.

Se tudo isso é autêntico, ou estelionato eleitoral arquitetado por marqueteiros, cada eleitor poderá responder diante da urna. Por enquanto, resta a bem-vinda sensação de que o caminho para o sucesso eleitoral pode não mais precisar de um discurso inflamado, algo que já havia dado as caras na vitória de Joe Biden sobre Donald Trump, e que talvez esteja aportando também no Brasil.