Imagem da Vera Magalhães e Marcelo de Moraes

por Marcelo de Moraes

Eleições nas Redes: Muito ajuda quem não atrapalha

Marlos Ápyus

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A Major Denice, que almeja a prefeitura de Salvador, entende o SUS como “uma das maiores conquistas do povo brasileiro”. Edmilson Rodrigues, que lidera a corrida pela de Belém, chamou Paulo Guedes de “parasita“. Renato Roseno, que deseja gerir Fortaleza, sentenciou que “privatizar o SUS é um crime”. Luizianne Lins, que possui o mesmo desejo, usou o cargo de deputada federal para tentar sustar o decreto que abria caminho para a privatização de Unidades Básicas de Saúde. Manuela D’Ávila, que lidera a disputa em Porto Alegre, deu as opções: “o SUS ou a barbárie“.

Nas primeiras 16 horas de ontem, a consultoria Arquimedes analisou mais de 150 mil menções ao SUS no Twitter. E encontrou 98% de manifestações negativas a respeito do decreto 10.530, que permitia a realização de estudos sobre possíveis parcerias entre o setor público e privado na construção e administração de UBSs. Orbitando a discussão, o tema mais recorrente da eleição municipal em curso: Jair Bolsonaro.

Nesta campanha, não tem faltado influenciador digital que peça voto a candidatos bolsonaristas sob a única justificativa de que se trata de um nome fiel ao presidente da República. O coro é encorpado por endossos de parlamentares como Bia Kicis, Otoni de Paula e Daniel Silveira, além do próprio Bolsonaro, padrinho de meia dúzia de candidaturas, como as de Celso Russomanno em São Paulo, Marcelo Crivella no Rio de Janeiro, e Bruno Engler em Belo Horizonte. Há ainda constantes boicotes a bolsonaristas que teriam traído o morador do Palácio da Alvorada, em uma lista encabeçada por Joice Hasselmann, em São Paulo, e Fernando Francischini, em Curitiba.

Mas há também o inverso de tudo isso, com uma forte “gritaria” nas mais variadas praças contra o voto em qualquer candidato alinhado com o Governo Federal. Por vezes, o recado vai além, e chega a pedir a queda do presidente, como fez Fernanda Melchionna, candidata a prefeita em Porto Alegre.

Tanta polarização, contudo, vem pendendo para um lado. Segundo o Ibope em rodada finalizada no último dia 17, apesar de Bolsonaro contar com aprovação alta nas capitais das regiões Norte e Centro-Oeste, segue altamente rejeitado nas do Sul, Sudeste e Nordeste. E o caso Russomanno é emblemático.

Já no primeiro debate televisionado, o deputado federal tentou colar a própria imagem à do maior garoto propaganda da Cloroquina no Brasil. Algumas semanas depois, caía 9 pontos percentuais nos levantamentos do Datafolha, e 6 pontos na pesquisa XP/Ipespe. Como plano B, Russomanno passou a economizar nas menções ao presidente. Mas alguns adversários ideológicos acharam vantajoso ampliar o alcance da parceria, como faz a deputada federal Sâmia Bomfim.

A missão da oposição fica mais fácil quando, em meio à maior crise sanitária em um século, o presidente da República se nega a comprar vacina, e assina um decreto que abre as portas para que um importante setor do Sistema Único de Saúde seja entregue a uma iniciativa privada que tão pouca empatia tem demonstrado para com os 159 mil brasileiros mortos pela covid-19. Tão fácil que, horas depois, o próprio Bolsonaro revogou o texto que autorizava o polêmico estudo. O que, claro, foi cantado nas redes sociais como uma vitória da oposição — o que está longe de ser “fake news”.