Imagem da Vera Magalhães e Marcelo de Moraes

por Marcelo de Moraes

Eleições nas Redes: O que Ocasio-Cortez e Boulos têm em comum

Marlos Ápyus

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Muito popular entre os mais jovens, o Twitch é hoje, segundo os cálculos da Alexa, o 32º site mais popular do mundo, superando marcas como Bing, eBay, AliExpress, Apple e o quase homônimo Twitter. No Brasil, a plataforma de transmissões de jogos online já chamou atenção quando, em maio, baniu o canal de Renan Bolsonaro após o quarto filho do presidente da República ironizar a gravidade da covid-19. Nos Estados Unidos, por sua vez, o serviço voltou ao noticiário político por obra de um dos jovens fenômenos da esquerda local, a congressista Alexandria Ocasio-Cortez.

A fama de AOC, como é conhecida, já havia extrapolado as fronteiras americanas quando, no ano passado, o presidente americano publicou uma sequência de mensagens xenofóbicas defendendo que algumas democratas voltassem para o lugar de onde vieram. Ocasio-Cortez é porto-riquenha por parte de mãe. Por ser um território não incorporado dos Estados Unidos, os cidadãos de Porto Rico possuem cidadania, mas não participam das eleições americanas. Para azar do republicano, contudo, AOC nasceu em Nova York.

Há dois dias, ao reunir amigos para jogar Among Us, o game que segue em primeiro lugar entre os mais baixados da Apple Store, AOC se viu em uma agenda de campanha prestigiada por 430 mil espectadores. Com as imagens replicadas no Facebook e YouTube, o público se aproximou do milhão de pessoas. Para efeito de comparação, quando discursou em Nova York no ano passado, Bernie Sanders conseguiu atrair 26 mil.

O sucesso do evento tem sido atribuído aos fãs (da parlamentar e do jogo), que organizaram o encontro e garantiram a viralização do conteúdo nas demais redes. Mas nada disso soa novidade a quem tem acompanhado as eleições municipais no Brasil.

Porque o roteiro se assemelha ao ocorrido há uma semana com Guilherme Boulos. Um time de influenciadores digitais o convidou para uma partida de “Among Us”, e o candidato do PSOL à prefeitura de São Paulo não pensou duas vezes antes de topar. O evento não teve a mesma audiência da versão americana, mas já foi visto por ao menos 125 mil pessoas no YouTube, o que daria para lotar o Morumbi e a Arena Corinthians, e ainda deixaria 8 mil “torcedores” do lado de fora.

Longe da própria bolha, os gamers possuem uma fama não muito boa. Não é segredo que o Estado Islâmico usava os jogos online para recrutar extremistas, e o noticiário ocasionalmente registra preocupantes casos de misoginia contra garotas que se aventuram em um meio majoritariamente masculino. Mas, segundo pesquisa Datafolha de agosto passado, trata-se de um mercado que, só no Brasil, conta com 67 milhões de consumidores.

Por isso, pode ser entendida como positiva a atenção que alguns políticos dedicam ao tema. Jair Bolsonaro mesmo vive a publicar mensagens voltadas a esse público. Afinal, o candidato precisa ir aonde o eleitor está. Boa parte da juventude que se diverte em plataformas como o Twitch vota. E qualquer projeto político precisa se manter atento às possibilidades de renovação.