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por Vera Magalhães e Marcelo de Moraes

Eleições nas Redes: Ressaca moral bolsonarista

Marlos Ápyus

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No Instagram, Breno Freire exibe os próprios músculos para 679 mil seguidores. Na urna eletrônica, no entanto, só conseguiu que 404 eleitores, muito menos do que o necessário, concordassem que o tenente do Exército se tornasse um dos vereadores do PSL de São Paulo.

Fenômeno parecido viveu Paula Marisa. Nas redes sociais, fala diariamente para quase um milhão de seguidores. Referendada por Eduardo Bolsonaro como uma opção conservadora para a Câmara Municipal de Canoas, no Rio Grande do Sul, a professora concluiu a disputa com apenas 1.707 votos, o que até fez dela uma das mais votadas, mas não o suficiente para superar o quociente eleitoral e conquistar ao menos uma suplência.

A eleição de 2018 deixou a falsa impressão de que bastaria um canal recheado de inscritos para qualquer influenciador digital garantir um cargo público. E a direita bolsonarista reforçou a aposta dois anos depois. Para tanto, ignorou o exemplo recente dos Estados Unidos, onde Joe Biden derrotou Donald Trump mesmo com uma presença digital muito mais discreta e ponderada.

Por aqui, melhor exemplo que o de Joice Hasselmann não há. Nas redes sociais, fala para mais de 4 milhões de seguidores. Na eleição passada, saiu da urna com mais de um milhão de votos para a Câmara Federal. Agora, na disputa pela prefeitura de São Paulo, não conquistou o apoio nem de cem mil paulistanos.

Sem desculpa melhor para o fiasco, Joice ensaiou usar o atraso na apuração para levantar suspeitas sobre a legitimidade do pleito. A ex-amiga Carla Zambelli, por sua vez, falou em “fraude monumental“, erros e até mesmo uma pulverização dos conservadores. Após fazer campanha pelo que poderia dar início a um “clã Zambelli” da política nacional, a deputada federal fracassou ao tentar eleger uma cunhada, o irmão e o próprio pai na campanha encerrada ontem.

Desinformação

Zambelli é um dos alvos do inquérito que, no STF, apura a proliferação de notícias falsas. Em junho, preferiu o silêncio em depoimento à Polícia Federal. Na ocasião, desinformou ao dizer que não sabia se era investigada ou testemunha (era investigada), e ao alegar que não tivera acesso ao inquérito (Alexandre de Moraes havia autorizado o acesso da defesa aos autos processuais).

Durante o final de semana, o Bot Sentinel, serviço que monitora perfis com comportamento incomum no Twitter, disparou seis alertas de que uma ação orquestrada tentava ampliar artificialmente o alcance da hashtag “#voteembolsonaristas”. E a votação ainda estava em andamento quando Winston Ling, um empresário bolsonarista, compartilhou uma postagem que relatava uma invasão aos servidores do Tribunal Superior Eleitoral.

De acordo com Luís Roberto Barroso, o vazamento de fato ocorreu, mas em data anterior a 23 de outubro, semanas antes da votação. Na manhã de ontem, contudo, houve ainda uma tentativa para sobrecarregar a estrutura do TSE com um ataque DDoS. Segundo a SaferNet, que ajuda o Ministério Público Federal em investigações do gênero, a sabotagem tinha o objetivo de deslegitimar a eleição.

Autocrítica?

O domingo já se aproximava do fim quando Jair Bolsonaro tentou minimizar a própria participação no pleito, e vender a ideia de que a esquerda teria sofrido uma derrota histórica. Hoje, sem apresentar provas, achou por bem endossar algumas teorias conspiratórias colocando em dúvida a credibilidade do sistema de votação.

Filipe Martins, no entanto, permitiu-se outro caminho. O assessor internacional do presidente da República reconheceu o fracasso bolsonarista do último final de semana. Mas, ao sugerir uma autocrítica, focou em críticas a adversários — sobrou até mesmo para a base governista que ajudou a esfriar os anseios por um novo processo de impeachment no Brasil.

Não deixa de ser um avanço para quem, até hoje, aconselha o presidente brasileiro a não reconhecer a vitória de Joe Biden nos Estados Unidos. Mas Martins nada falou sobre o que está no centro das ruínas das direitas americana e brasileira: a gestão negacionista da maior crise sanitária em um século. Ao que tudo indica, esta outra ficha custará mais um pouco a cair.

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