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por Marcelo de Moraes

Eleitorado está ‘mais sensibilizado’ com pautas de minorias

Equipe BR Político

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Além do fortalecimento de siglas ao centro e da recusa aos movimentos “antipolítica”, a terceira marca notável que o primeiro turno da eleição municipal deixou foi o aumento significante de minorias – ou maiorias minorizadas, como mulheres e negros – entre os eleitos, principalmente às Câmaras Municipais. Além do crescimento numérico, candidaturas que defendem pautas de igualdade e representatividade e que tiveram origem em movimentos sociais populares se destacaram nas votações. O fenômeno chega como um rebote, aliado ao refluxo de forças da extrema-direita na política.

À esquerda, Linda Brasil, eleita vereadora com a maior votação da Câmara de Aracaju

À esquerda, Linda Brasil, eleita vereadora com a maior votação da Câmara de Aracaju Foto: Reprodução/Instagram

Na maior capital do País, São Paulo, a mulher mais votada para a Câmara Municipal foi Erika Hilton (PSOL), transsexual e negra. Em Aracaju, o mesmo fenômeno elegeu Linda Brasil (PSOL), também transsexual, com a maior votação entre todos os candidatos da capital sergipana. Em Belo Horizonte, Duda Salabert (PDT) recebeu o maior número de votos da história da Câmara da cidade. A elas, somam-se outros 27 transsexuais que ocuparão mandatos em Câmaras Municipais pelo Brasil, com candidaturas que não se resumiram aos partidos da esquerda. As legendas do PSDB, PL, Podemos, Republicanos, MDB, PROS, PTB, DEM, Avante e PV também elegeram futuros vereadores trans neste ano.

Candidaturas coletivas com origem em movimentos periféricos de pleitos antirracista e feminista também ganharam espaço no primeiro turno.

Para a cientista política e especialista em direito eleitoral da FGV Luciana Ramos, o aumento da expressão de minorias na eleição deste ano ocorreu pela atuação intensa dos próprios movimentos sociais para emplacar candidatos próprios e uma maior sensibilização do eleitorado em torno das pautas defendidas por esses grupos. “Sem dúvida a sociedade civil teve um papel importantíssimo. Mas o eleitorado ficou mais sensibilizado pela necessidade de inclusão de outras pessoas na política para levar outros interesses, visões e demandas à elaboração de políticas públicas”, afirma.

A opinião é compartilhada pela cientista política e co-fundadora do projeto A Tenda das Candidatas, que ofereceu preparação e consultoria a campanhas de mulheres negras, trans e quilombolas, Hannah Maruci. “Quando vemos mulheres como as mais bem votadas de uma Câmara, eleição de 30 pessoas trans em um País que elegeu a primeira e até então única deputada trans há dois anos, e Câmaras que não tinham tido negros em sua história agora elegerem, podemos afirmar que parte do eleitorado está reconhecendo que a proximidade entre a população e representantes é importante”, pondera.

A “reação” mostrada pelo eleitorado ocorre depois de um período de ascensão de movimentos da extrema-direita com a condução de discursos de ódio à própria política formal pelo governo Jair Bolsonaro e a aversão a direitos de minorias e à atuação de movimentos da sociedade civil.

Neste ano, Linda Brasil, eleita vereadora com a maior votação de Aracaju, recebeu mais que o dobro dos votos que em 2016 e 2018. Segundo ela, foi um episódio que ocorreu entre o primeiro e o segundo turno do pleito que elegeu Bolsonaro presidente o ponto de inflexão que desembocou na ascensão de seu nome e sua eleição neste ano.

Ela presenciou a morte da transsexual Laysa Fortuna em 18 de outubro de 2018, em um período de intensificação de ameaças a trans e travestis na cidade e forte campanha de grupos bolsonaristas. “A fala dele foi que todos os viados iriam morrer. Ele vinha gritando ‘Bolsonaro’ para assustar as trans da região nos dias que antecederam”, afirma. Depois disso, a mestre em educação pela Universidade Federal de Sergipe tomou frente de manifestações e atos contra o ocorrido. Das mobilizações, o grupo conseguiu o atendimento a uma demanda de anos de movimentos de mulheres: que a delegacia de atendimento a grupos vulneráveis funcionasse 24 horas por dia.

A partir de então, seu nome passou a ficar cada vez mais conhecido. Apesar de já ser filiada ao PSOL e atuar em causas sociais e por direitos LGBT desde 2015, foi apenas em 2020 que conseguiu votos suficientes para se eleger pelo partido, desta vez, com a maior votação do pleito.

Em São Paulo, foram algumas as candidaturas alinhadas com a pauta dos direitos de minorias que prosperaram. Além de Érika Hilton e Thammy Miranda (PL), dois dos mais votados na cidade, as candidaturas coletivas oriundas de movimentos sociais da Bancada Feminista e do Quilombo Periférico também ganharam cadeira na Câmara Municipal.

A mobilização em torno de representantes diretos de movimentos negros, feministas e por direitos da população da periferia para o lançamento de candidatos também esteve relacionada aos movimentos políticos recentes, diz o produtor cultural e um dos seis integrantes do Quilombo Periférico Alex Barcellos.

“No decorrer de uns 5 anos para cá assistimos perdas significantes nas pautas dos movimentos populares. Decidimos que chegou um momento crítico em que a gente precisa ocupar o Legislativo além de fazer o trabalho de base que tradicionalmente fazemos”, afirmou.

Os seis integrantes, Elaine Mineiro, que ocupará formalmente a cadeira, Débora Dias, Julio Cezar, Samara Sóstenes, Erick Ovelha e Barcellos se conheceram pela atuação conjunta de movimentos. Cada um deles integrava um projeto diferente em regiões diversas da cidade. Barcellos atua na agência Solano Trindade e na Rede Juventudes e Economia Solidária. Segundo ele, a falta de estrutura para uma campanha que tentava conquistar espaços já dominados por outros nomes políticos era um dos principais desafios. “A gente precisa colocar seis pessoas para conseguir ocupar uma cadeira”, destaca.

No entanto, neste ano, observa uma mudança no perfil do eleitorado da candidatura. “Tanto com candidaturas de mulheres quanto de movimentos negros, sempre tivemos a maioria dos votos no centro. Vila mariana, Pompeia, Pinheiros, Lapa. E na nossa neste ano tivemos mais votos na Zona Leste e na Zona Sul. Tivemos mais votos nos nossos territórios”, afirma.

Convivência com perfil tradicional

Apesar do aumento das candidaturas que representam pautas identitárias, o perfil da maioria dos políticos que ocuparão as Casas legislativas a partir de 2021 continua sendo tradicional, de homens, brancos, de estratos superiores de renda. Grupos conservadores também continuam numerosos e com grande representação política. Na avaliação das cientistas políticas, a mera presença maior de representantes de outros grupos não significa que pautas defendidas por esses grupos prosperarão automaticamente ou que seus discursos terão grandes impactos imediatos.

A deputada federal Tabata Amaral (PDT-SP), que promoveu campanhas de mulheres neste pleito destaca que, apesar da eleição pautada pela diversidade, o caminho “ainda é longo” e discriminações tradicionalmente impostas a minorias na política continuam sendo a tônica. Em seus quase dois anos como parlamentar e durante a campanha de 2020, a deputada relata que a violência política de gênero foi o maior obstáculo. “Ameaças constantes, agressões na internet e físicas, situações de violência psicológica, espaços para exercer a política que acreditamos sendo boicotados, falta de financiamento, promessas não cumpridas e uma resistência brutal”, diz.

A pesquisadora da FGV ainda destaca que os silenciamentos e violência de gênero durante a atividade parlamentar devem continuar e não serão resolvidos apenas pela presença de mais mulheres nas Casas. “Não sou muito de resolver as coisas com o direito penal, mas nesse caso, da violência política de gênero, acho que esse é o caminho”, afirma. Ela e Maruci observam que as próprias estruturas partidárias, compostas majoritariamente por homens, são um gargalo.

Segundo Linda Brasil, foi depois de divulgados os resultados da eleição que recebeu a maior parte das ameaças que enfrentou relacionadas à sua candidatura. Nas redes sociais, virou alvo de discursos de ódio, muitos de autores ligados a grupos religiosos, que têm representação significativa na Câmara de Aracaju. Em Joiville, o roteiro foi o mesmo. Depois do resultado do pleito, a primeira vereadora eleita negra, Ana Lúcia Martins (PT), começou a receber ameaças de morte. / Roberta Vassallo