Imagem da Vera Magalhães e Marcelo de Moraes

por Vera Magalhães e Marcelo de Moraes

Em Curitiba, rivais de Greca correm contra o tempo para tentar forçar 2º turno

Cassia Miranda

Exclusivo para assinantes

A menos de duas semanas do primeiro turno das eleições municipais, o atual prefeito de Curitiba, Rafael Greca (DEM), tem chances de liquidar o pleito e ser reeleito já no dia 15 de novembro. De acordo com pesquisa Ibope divulgada em 22 de outubro, ele tem 46% das intenções de voto. Mas ele não canta vitória antes do apito final e diz que a vantagem é “virtual”.

Rafael Greca, Goura e Fernando Francischini. Fotos: Reprodução/Facebook

Uma das estratégias adotadas pela campanha de Greca para blindar o prefeito é mantê-lo longe dos debates. Mesmo os que são realizados na porta de sua casa e em frente à prefeitura de Curitiba. A primeira ausência se deu quando ele estava diagnosticado com covid-19. As seguintes, foram escolhas. Sem o confronto, o candidato à reeleição evita o desgaste.

“A legitimidade de todo debate pressupõe o conhecimento de causa. Ficou claro que meus adversários não o tem, pois a estratégia dos mesmos é de fazer ataques orquestrados à minha gestão e à minha pessoa. Preferiria que eles tivessem apresentado suas propostas para a cidade. Para mim, o desaforo é a ausência do argumento”, justifica o prefeito ao BRPolítico.

Atrás do prefeito, os dois candidatos – com perfis bastante opostos – mais bem colocados na disputa, o deputado Goura (PDT) e o colega de Assembleia Legislativa Fernando Francischini (PSL), que têm 8% cada um, segundo o instituto, acreditam ainda na possibilidade de que vão conquistar levar a disputa para o segundo turno.

A missão, no entanto, parece estar mais difícil para o candidato do PSL. Com um discurso fundamentalmente ligado à segurança pública e ao bolsonarismo, segundo a mesma pesquisa Ibope, ele é rejeitado por 33% dos eleitores curitibanos. Na sequência, com 18%, os entrevistados afirmam que não votariam em Greca “de jeito nenhum”. Entre 16 candidatos que disputam a prefeitura, Goura tem um estilo mais low profile, e é conhecido por quase sempre estar de bicicleta. Ele é o sétimo na lista dos rejeitados, com 9%.

“A caminhada rumo ao segundo turno não para”, tuitou Francischini na última sexta, 30. No mesmo dia, ao ser perguntado pelo BRP se acredita que o fato de o presidente Jair Bolsonaro não ter declarado apoio a ele é sintomático na pontuação com menos de dois dígitos conquistadas até aqui na disputa, o parlamentar disse “respeitar a decisão do presidente. E completou: “Continuo defendendo as posições claras, do PSL, e defendendo a pauta de transformações que Bolsonaro defende”.

Já Goura, que é apadrinhado por Ciro Gomes (PDT), aposta que vai chegar ao segundo turno por causa de suas propostas por uma cidade que “volte a ser vanguarda ambiental, que tenha políticas sociais efetivas e que trate com respeito o funcionalismo”, disse ao BRP.

Segundo Goura, ainda que Greca apareça com quase cinco vezes mais intenções de voto do que ele na pesquisa, o atual prefeito “não tem a ampla maioria das intenções” e a briga “deve, sim, ir para o segundo turno. Estamos confiantes de que temos possibilidade de crescer para disputarmos esse segundo turno com o prefeito Rafael Greca”, afirmou.

Tendência

A vantagem do atual prefeito segue uma tendência já apontada aqui no Fique de Olho. A dos candidatos com perfil de Centro e centro-direita aparecem na frente nas maiores capitais do Brasil. Além disso, dos 13 prefeitos de capitais que buscam a reeleição, 11 deles estão na liderança das pesquisas.

Se confirmado, o indicativo ao Centro representa uma mudança em relação às eleições presidenciais de 2018. O pleito deste ano, é claro, tem características únicas por conta da pandemia do novo coronavírus. E isso pode favorecer justamente os políticos mais tradicionais, que se beneficiam do recall de eleições recentes.

De onde vem a vantagem?

Os candidatos citam motivos diferentes para tentar justificar a vantagem numérica de Greca. Para Francischini, o candidato à reeleição “passou os últimos quatro anos em campanha”. “Ele teve mais de R$ 600 milhões repassados pelo ex-governador Beto Richa – que o tirou do ostracismo político e foi fundamental para sua vitória em 2016. A maioria desse recurso usou em asfalto”, aponta.

Em maio, já durante a pandemia da covid-19, portanto, a Câmara dos Vereadores aprovou
pedido do prefeito para autorização de um empréstimo no valor R$ 60 milhões com o Banco do Brasil para obras de pavimentação asfáltica.

Em entrevista ao portal Ric Mais, na última quinta, ao ser perguntado sobre as críticas de que teria gastado muito dinheiro com asfalto em meio à pandemia, Greca respondeu: “Os quinhentos quilômetros de asfalto que nós fizemos estão muito aquém do grande investimento de saúde que fizemos.” Segundo o prefeito, o orçamento de obras foi de cerca de R$ 1 bilhão, enquanto o investido em saúde, diz o prefeito, foi de R$ 2,5 bilhões.

Na avaliação de Goura, a “aparente vantagem” de Greca ocorre por dois motivos: “Primeiro, por ter feito um gasto muito expressivo em propaganda” e, segundo, pelo “fato de o governador Ratinho Jr. (PSD) ter agido diretamente para que outros nomes que estavam manifestando interesse e intenção de disputarem a prefeitura de Curitiba esse ano se retirassem do pleito”.

Sem citar nomes, Goura se refere ao secretário de Justiça do Estado, Ney Leprevost (PSD), que chegou a ser lançado pré-candidato, mas desistiu após pedido do governador. Apesar de aparecer, antes do início da campanha, na segunda posição da disputa, segundo o Paraná Pesquisas. O partido preferiu apostar as fichas em Greca, e não dividir os votos do eleitorado de Centro.

Nas palavras do prefeito, a justificativa fica mais romântica. “A sensibilidade e a vontade de fazer o bem para Curitiba nos uniu e permitiu a continuidade da equipe que formo com o meu vice-prefeito, Eduardo Pimentel, que é do mesmo partido do governador e do secretário de Estado da Justiça, Família e Trabalho, Ney Leprevost”, disse para explicar o que uma das adversárias na disputa já chamou de “eleição de gabinete”.