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por Marcelo de Moraes

Em meio ao avanço da pandemia, sobe pressão por novo adiamento do Enem

Cassia Miranda

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Mesmo no cenário de avanço da covid-19 no País, no próximo domingo, 17, mais de 5,7 milhões de estudantes brasileiros – número que é inferior ao total de brasileiros que já foram contaminados pelo novo coronavírus no Brasil – terão o desafio de realizar a primeira etapa do Exame Nacional do Ensino Médio (Enem). A segunda etapa da prova está marcada para o próximo dia 24.

Mais de 5,7 milhões de estudantes estão inscritos para o Enem deste ano. Foto: Tânia Rêgo/Agência Brasil

A data original do exame era novembro de 2020. Após resistências iniciais do então ministro da Educação, Abraham Weintraub, em adiar a prova, a data acabou sendo transferida para janeiro, contrariando o resultado de uma enquete com os estudantes inscritos, que pediam o adiamento até maio de 2021.

Desde a última semana, entidades estudantis vêm tentando uma nova postergação da prova. Nesta semana, elas prometem pedir na Justiça a revisão da realização do exame em meio à pandemia.

Segundo o presidente da União Nacional dos Estudantes (UNE), Iago Montalvão, a busca por soluções judiciais que levam ao adiamento será feita “com cuidado” para não criar ainda mais instabilidade. Ele afirma que a entidade não quer transferência da data, mas sim, que o Ministério da Educação se disponha a ouvir e construir um novo calendário.

“Nós não queremos transformar a realização dessa prova numa coisa mais instável do que ela já está. Nós queremos que o MEC assuma a responsabilidade de dar segurança à prova. A gente está pedindo o adiamento porque não há, por parte dos estudantes, confiança na possibilidade de realizar a prova”, diz.

O secretário de Educação da Bahia, Jerônimo Rodrigues, mandou ofício ao Ministério da Educação (MEC) pedindo que as provas fossem transferidas para maio. Recebeu um não como resposta.

“Entendemos que não é razoável expor milhões de estudantes ao risco de aglomeração e contaminação quando o adiamento das provas — não falamos em cancelamento — terá impactos financeiros e logísticos administráveis e plenamente justificáveis face ao valor incalculável de tantas vidas”, afirmou, em nota.

Preparo x insanidade

Por outro lado, desta vez, o Instituto Nacional de Estudos e Pesquisas Educacionais Anísio Teixeira (Inep) afirma que as datas serão mantidas, pois, o País está “preparado” para realizar o exame em ambiente de pandemia.

Para o infectologista José Urbaéz, diretor científico da Sociedade de Infectologia do Distrito Federal, a aplicação da prova neste momento é “uma insanidade”, disse ao BRPolítico.

“Olha eu sou totalmente contra a realização desse tipo de evento, acho uma insanidade. Então, não acredito que exista nenhuma fórmula segura de levar adiante o ENEM, pois é uma aglomeração em locais fechados com grande número de pessoas, mesmo com uso de máscara. Se está promovendo um evento de superespalhamento viral, está novamente se negando uma pandemia gravíssima”, afirma.

Para a epidemiologista Ethel Maciel, professora da Universidade Federal do Espírito Santo (Ufes), o governo deveria priorizar o momento para “salvar vidas”. “Qual o sentido de fazer o Enem no meio da segunda onda no Brasil?”, escreveu no Twitter.

A preocupação coincide com a dos alunos. Em nota conjunta divulgada na semana passada, a UNE e a União Brasileira dos Estudantes Secundaristas (Ubes) afirmam que a realização da prova coloca em risco a segurança “em um ambiente de crescente contaminação”.

“Não há confiança por parte de muitos estudantes, seja pelo cuidado com a saúde, muitos em grupo de risco, ou mesmo pelas restrições impostas nos Estados e municípios”, diz trecho da nota.

Investimento

O Inep afirma ter investido R$ 69 milhões em medidas de segurança relativas à covid-19, como maior espaçamento entre os alunos, menos estudantes por sala, maior higienização dos locais de provas, álcool gel disponível a candidatos e aplicadores. Além disso, a identificação será feita antes de os estudantes entrarem na sala. Contudo, não haverá medição de temperatura dos candidatos.

“Estamos prontos, nos preparamos para fazer essa prova num ambiente de pandemia. Eu sei que é difícil, mas fruto desse planejamento estamos seguros de que podemos aplicar a prova com tranquilidade”, afirma o presidente do Inep, Alexandre Lopes.

Nos locais de prova, o uso da máscara será obrigatório. Os candidatos poderão trocá-la durante a aplicação.

As medidas apresentadas pelo Inep são questionadas pelo infectologista, que ressalta que “locais fechados como salas de aula geram aerossóis que aumenta a capacidade de transmissão do vírus com o maior tempo de exposição”. A prova tem duração de 5 horas e 30 minutos.

Desigualdade de oportunidades

As desigualdades na educação também são um argumento dos estudantes em defesa do adiamento do Enem. Enquanto parte das escolas particulares conseguiu se organizar para oferecer aulas à distância, na rede pública houve dificuldade de garantir o acesso dos alunos às atividades remotas.

“O que se esperava, desde o início, era que o MEC estivesse na linha de frente, propondo e coordenando um grupo de trabalho, com ações estratégicas e investimentos que buscassem reduzir as desigualdades aprofundadas pela pandemia”, escreveram os estudantes na nota.

Caos suspeitos e confirmados
De acordo com o presidente da UNE, Iago Montalvão, um dos principais questionamentos que a entidade tem recebido dos estudantes é sobre o que deve ser feito nos casos em que o aluno estiver com suspeitas ou estiver com diagnóstico confirmado de covid-19.

Segundo o Inep, quem estiver com suspeita de covid-19 ou com diagnóstico da doença poderá pedir, via telefone, a reaplicação da prova. A nova data será em fevereiro.

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