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por Vera Magalhães e Marcelo de Moraes

Estado com menos casos de covid-19, MS vive risco com casos em frigoríficos

Equipe BR Político

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Mato Grosso do Sul (MS) ostenta o último lugar no ranking dos Estados mais atingidos pela covid-19 no Brasil. Com cerca de 2,8 milhões de habitantes, o Estado registra, até quinta-feira, 4, 1.802 casos confirmados e 19 mortes em decorrência da doença. Por outro lado, apresenta um alto coeficiente de incidência de contaminação por covid, 45,4 por 100 mil habitantes. Nas últimas semanas, no entanto, a confirmação de novos casos da doença em funcionários de ao menos quatro frigoríficos do Estado, em três municípios, despertou o alarme das autoridades estaduais. O foco é expressivo por se tratar do quarto Estado com maior número de bovinos do País e onde dois municípios (Corumbá e Ribas do Rio Pardo) estão entre os cinco com maior rebanho do Brasil, de acordo com dados do IBGE de 2018.

Taxa de contágio pelo novo coronavírus no Estado é 3,81%. Foto: Chico Rodrigues/Governo MS

Em dois dias, houve aumento de 63 casos, totalizando 325 ocorrências nesses estabelecimentos, segundo dados do Ministério Público do Trabalho (MPT) estadual. Cidade com segunda maior incidência de casos, atrás da capital Campo Grande, Dourados contabilizava 186 trabalhadores de dois frigoríficos com covid-19 até sexta passada, sendo que um deles tem 5 mil empregados. Guia Lopes de Laguna tinha 109 e Bonito, 30.

Dever de casa

Entre os motivos identificados pelos cientistas ouvidos pelo BRP para a baixa ocorrência oficial da covid-19 na região estariam a baixa densidade populacional do Estado, subnotificação e vigilância epidemiológica. Era, como visto agora, uma “questão de tempo” para que os números disparassem.

“Num local com relativamente densidade populacional menor, onde talvez menos pessoas circulem nas áreas metropolitanas com maior casos da doença, tanto no Norte quanto na região Sudeste do País, a doença demorou mais para chegar. Acho que era só uma questão de tempo mesmo”, afirmou a infectologista Raquel Stucchi, professora da Faculdade de Ciências Médicas da Unicamp e membro da Sociedade Brasileira de Infectologia (SBI).

Para o infectologista José David Urbaéz, também membro da SBI, o suposto aumento repentino de casos em qualquer região do País tem relação “com a vigilância epidemiológica, ou seja, que a capacidade laboratorial e/ou de notificação de casos estava muito deficiente e o número que nos estávamos observando era na verdade subnotificação”.

Pesou contra a acelerada da disseminação ainda o fato de o Mato Grosso do Sul ter um dos índices de isolamento social mais baixos do País, de acordo com o Mapa Brasileiro da Covid. A taxa no Estado gira abaixo dos 40%. Na última quarta-feira, 3, foi de 38,3%, por exemplo. O secretário estadual de Saúde, Geraldo Resende, aponta para o fato de o Mato Grosso do Sul ter uma população bastante conservadora, em que parte insiste em seguir as orientações de “outras autoridades nacionais”. Apesar de não citar explicitamente o nome do presidente Jair Bolsonaro, o comentário faz referência às declarações feitas pelo chefe do Executivo contra as medidas de distanciamento social adotadas pelos Estados.

“Aqui no Mato Grosso do Sul, uma parte substancial da população, às vezes, segue orientações que não da autoridade sanitária, segue outras autoridades nacionais, o que dificulta o nosso trabalho. Infelizmente, o Mato Grosso do Sul, como todo mundo sabe, é um Estado muito conservador aonde parte da população quer seguir outras orientações, dificultando o nosso trabalho”.

O caso dos frigoríficos

De acordo com Resende, o vírus da covid-19 chegou à cidade de Guia Lopes da Laguna, município de 10.366 habitantes, localizado a 233 km de Campo Grande (MS), ​por meio de um caminhoneiro que esteve na cidade para uma entrega num frigorífico local, no final de abril. Ele teve contato direto com funcionários do setor de descarregamento. Após saber que estava contaminado, o caminhoneiro entrou em contato com o frigorífico para alertar sobre o risco de os funcionários estarem infectados.

Os colaboradores que tiveram acesso ao caminhoneiro foram colocados em isolamento e, no dia 1o de maio, um deles relatou sintomas compatíveis com a covid-19, sendo submetido ao exame, que apresentou resultado positivo. Logo, mais funcionários apresentaram sintomas. Nas primeiras semanas, dos 311 funcionários, 19 tiveram exame positivo para a doença. No dia 7 de maio, o frigorífico resolveu suspender as atividades e pedir que todos ficassem em isolamento domiciliar.

O vírus também chegou a um segundo frigorífico da cidade por meio de uma funcionária que é casada com um colaborador da primeira unidade de processamento de proteína animal atingida. Esses casos fizeram com que a prefeitura decretasse lockdown na cidade quando o município apresentava ainda apenas 12 casos confirmados. / Alexandra Martins e Cássia Miranda