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por Vera Magalhães e Marcelo de Moraes

Estados com tendência de segunda onda criam alerta para restante do País

Cassia Miranda

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Com mais de 2 milhões de casos de covid-19 registrados e sem uma estratégia conjunta para conter o avanço do vírus, alguns Estados brasileiros que vinham apresentando queda nas internações por Síndrome Respiratória Aguda Grave (SRAG) voltaram a registrar aumento de novos casos. Com isso, o Brasil, que em muitas regiões ainda nem atingiu o platô na evolução da doença, viu o medo da chegada de uma segunda onda se instalar em quatro Estados.

Boletim da Fiocruz alerta para a tendência de segunda onda da covid-19 em Rio de Janeiro, Amapá, Maranhão e Ceará. Foto: Wilton Junior/Estadão

De acordo com boletim da Fundação Osvaldo Cruz (Fiocruz) divulgado na última semana, depois de terem baixado consideravelmente o número de casos registrados de SRAG, Amapá, Maranhão, Ceará e Rio de Janeiro voltaram a ter crescimento no número de diagnósticos.

A divulgação da informação ocorre no mesmo momento em que o Tribunal de Contas da União (TCU) cobra explicações ao governo federal sobre a estratégia de gastos no combate ao novo coronavírus. Segundo relatório do órgão, o Ministério da Saúde gastou apenas 29% do dinheiro disponível para as aquisições e transferências de recursos para Estados e municípios entre março e 28 de maio.

O documento da Fiocruz se baseia no monitoramento feito pelo sistema InfoGripe, que acompanha dados a partir de um sistema da Secretaria de Vigilância em Saúde do Ministério da Saúde.

Nem todo caso de SRAG é causado pela covid-19. No entanto, durante a pandemia, eles estão fortemente associados ao novo coronavírus. Segundo o coordenador do InfoGripe, Marcelo Gomes, 96,7% dos casos e 99,1% das mortes por SRAG neste ano acusaram resultado positivo para a covid-19 após passarem por exames. Por isso a preocupação.

Em entrevista ao BRPolítico, o pesquisador destaca a necessidade de tratar a pandemia maneira heterogênea nas diferentes regiões do País. Mas garante que o cenário registrado por Amapá, Maranhão, Ceará e Rio de Janeiro é claro.

“Como teve um pico bem marcado com uma sequência de várias semanas de queda significativa para depois voltar a crescer, isso já é um cenário em que tipicamente se fala de primeira e segunda onda”, diz. A análise é referente à Semana Epidemiológica 29, que vai de 12 a 18 de julho.

Olha a onda

No Amapá, o pico de internações foi registrado entre 3 e 9 de maio: 65 novos pacientes, em termos de incidência de casos por 100 mil habitantes. Depois, foi verificada uma queda de 46% e chegou a 35 casos. Agora, voltou a subir, para 59. No mesmo período, o Maranhão registrou 378 casos na semana de pico, depois, caiu para 150 e agora voltou a subir para 167 internações. O Ceará passou de 2.048 casos para 813 — e registrou 871 na semana passada. Já o Rio chegou a 2.844 internações em sua pior semana (entre 28 e 4 de maio), baixou 60%, para 1.154 — e voltou a 1.367 entre 12 e 18 de julho.

“Está muito claro ainda que temos um longo caminho pela frente em termos de Brasil como um todo. Assim como a gente está observando esses quatro Estados, que vinham em queda e agora estão voltando a subir, nós temos diversos Estados que sequer chegaram a um platô, quem dirá começar queda”, aponta.

Em nota, a Secretaria de Saúde do Maranhão contesta a existência de segunda onda no Estado. Segundo a pasta, o aumento das notificações de SRAG se deve a casos anteriores da doença e que somente agora foram confirmados e inseridos no Sistema SIVEP Gripe, do Ministério da Saúde. “A demora na inserção na plataforma se deve à instabilidade diária dos sistemas oficiais de notificação do governo federal”, aponta.

“A Secretaria reforça, também, que não há sinalização de uma segunda onda de contaminação por Covid-19 no estado, já que a porta de entrada para Covid-19 ou SRAG no Maranhão está com demanda decrescente, bem como baixa taxa de ocupação dos leitos clínicos e UTI. No último boletim epidemiológico divulgado, a rede estadual de saúde apresentou 26,82% dos leitos clínicos e 50,58% dos leitos de UTI ocupados. Além disso, o Estado apresenta taxa de contágio menor do que 1 há mais de 30 dias, segundo Covid-19 Analytics”, diz trecho da nota.

Procuradas, as outras três secretarias estaduais de Saúde não responderam ao contato até o fechamento desta reportagem.

Pelo Twitter, na noite de domingo, 26, o governador do Ceará, Camilo Santana (PT), citou a possibilidade de interromper o plano de retomada econômica, caso os índices do novo coronavírus tornassem a subir no Estado. ”

“Tenho alertado de forma insistente que a pandemia continua e não podemos relaxar nos cuidados. Temos visto aglomerações injustificáveis e casos de desrespeito ao uso de máscara na capital e no interior. Isso é muito sério! Não voltamos à normalidade”, escreveu.

E seguiu: “Se os números voltarem a subir, seríamos obrigados a interromper o Plano de Retomada e até retroceder em algumas decisões de abertura dos negócios, como ocorreu em outros lugares. Para que isso não aconteça, é fundamental que todos colaborem”, disse.

Crescimento

Outros Estados ainda enfrentam a fase de crescimento da primeira onda de novos registros, como é o caso de Rio Grande do Sul, Santa Catarina e Paraná, além de Sergipe e Mato Grosso do Sul. No geral, esses Estados foram atingidos mais tardiamente pelo vírus.

Os dados de crescimento da Fiocruz são reforçados por um modelo estatístico desenvolvido por pesquisadores da USP que mede a velocidade da epidemia e como ela muda ao longo do tempo. O Covid Radar aponta para o crescimento do número de casos em 12 Estados. A ferramento de monitoramento indica ainda que nos últimos 15 dias houve pouca variação no número de casos em 9 Estados e baixa no número registrado em seis.

Estabilizou?

O boletim da Fiocruz indica que Tocantins, Paraíba, Distrito Federal e Minas Gerais atingiram o platô na evolução da doença, enquanto São Paulo se manteve nesta estabilização por mais uma semana. Na última quarta, 22, no entanto, o Brasil bateu novo recorde no número de casos e o Estado voltou a ter grandes números de novos registros de pacientes, com mais de 16 mil novas confirmações, o que pode impactar no próximo boletim epidemiológico da Fiocruz.

Processo de reabertura

Além de a possibilidade de passarem por uma segunda onda da pandemia, os quatro Estados que despertam a preocupação da Fiocruz também têm em comum o fato de estarem passando por processos de reabertura.

O Amapá, oficialmente está sob o decreto estadual de quarentena até 29 de julho. No entanto, a capital Macapá vem reabrindo o comércio gradativamente desde 16 de junho. Por enquanto, as aulas na rede estadual ainda não têm previsão de serem retomadas.

Depois de passar por lockdown no início de maio, desde o final do mesmo mês, o Maranhão tem flexibilizado gradualmente o isolamento social. Comércio, academias, bares e restaurantes já voltaram a funcionar. Na última segunda, 20, a Secretaria de Educação do Estado divulgou uma nova previsão – a quarta – para a volta às aulas presenciais nas escolas: 10 de agosto, mas apenas para alunos do terceiro ano do ensino médio. Para os demais estudantes, o decreto estadual diz que novas portarias serão anunciadas “à luz dos indicadores epidemiológicos”.

A reabertura cearense começou em 1 de junho. Na última semana, a atividade econômica do Estado atingiu 95% de funcionamento. A capital, Fortaleza, é o único município que se encontra na fase 4 do plano, a última. No Estado, ainda não há previsão de volta às aulas.

O governo do Rio de Janeiro publicou na quarta-feira, 22, um decreto que autoriza a retomada de atividades nas academias e salões de beleza. O decreto mantém a suspensão das aulas na rede estadual até 5 de agosto. A prefeitura do Rio, no entanto, autorizou a reabertura de escolas particulares a partir de 3 de agosto.

Em nota técnica, a Fiocruz alertou para a possibilidade de a retomada das aulas expor 600 mil pessoas de grupos de risco da covid-19 que moram com estudantes. Em todo o Brasil este número chegaria a 9,3 milhões de pessoas.

De acordo com o alerta, essas pessoas são idosos ou adultos com alguma comorbidade e que vivem em lares com, pelo menos, um menor em idade escolar e que poderiam ser infectados caso estas crianças e adolescentes se tornem vetores da doença. / Colaborou: Júlia Vieira

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