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por Vera Magalhães e Marcelo de Moraes

Estatuto não permitiria colocar Bolsonaro na presidência do PSL, diz Zambelli

Equipe BR Político

Signatária da carta de desagravo ao presidente Jair Bolsonaro na disputa de poder que ele trava com o presidente do PSL, Luciano Bivar, a deputada Carla Zambelli (PSL-SP) afirma que o que mais incomoda os aliados do presidente é a falta de transparência do partido com o uso dos recursos públicos recebidos, como o Fundo Partidário. Segundo ela, as recentes mudanças no estatuto da legenda promovem ainda concentração de poder. “Criaram-se mais de 130 cargos que sempre vão votar no Bivar. Nunca alcançaríamos uma maioria para colocar, por exemplo, o presidente Bolsonaro na presidência do partido ou quem quer que seja”, disse ela ao BRP.

BRP – É público que o clima interno está tenso. Como está a relação entre a senhora e seus colegas com os outros deputados, que apoiam o presidente Luciano Bivar?

Carla Zambelli – O clima está ok, estamos conversando. Eu mantenho vários amigos nesse grupo que ainda não assinou a carta. Eles não são, necessariamente, contrários ao Jair. Os pontos centrais da carta são a transparência com a utilização dos recursos públicos e a democracia nas decisões (do partido). A ideia não é brigar nem sair do PSL, e sim manter o compromisso firmado em 2018 com a população, de ética, moralidade, transparência e liberdade.

BRP – Os deputados que saírem da sigla vão perder muito dinheiro do Fundo Partidário. Isso os preocupa de alguma forma, pensando nas eleições de 2020 ou 2022?

Carla Zambelli – Quem assinou a carta sabe da possibilidade de perder o Fundo Partidário e tempo de TV. Eles não estão preocupados com isso. Muitos, como eu, não tiveram tempo de TV — acho que apareci 5 ou 10 segundos apenas por conta da cota para mulheres. Não usei um centavo do dinheiro público. O mais importante é o compromisso que temos com o nosso público.

BRP – Vale a pena sair do PSL ainda? Deixar o partido não deixa a senhora preocupada em sofrer desgaste político?

Carla Zambelli – O maior desgaste seria a população perceber, em algum momento, que o partido do qual fazemos parte não tem tido transparência no uso dos recursos públicos. São mais de R$ 400 milhões por ano. É muito dinheiro sem prestação de contas. A partir do momento em que Luciano Bivar — e nada contra a pessoa dele, muito pelo contrário: tenho muito respeito por ele — disse, de uma forma muito pejorativa, que o presidente (Bolsonaro) estava afastado do PSL, a população esperava de nós essa atitude: nos colocar ao lado do Bolsonaro haja o que houver. Isso independentemente de perder Fundo Partidário ou não.

BRP – Por que seguir o presidente Bolsonaro? O que tanto incomoda a senhora dentro do partido?

Carla Zambelli – São dois pontos. Um deles, como comentei, é a falta de transparência no uso dos recursos. Eu não tenho cargo nenhum, seja em liderança ou em comissão. Não tenho cargo no governo nem preciso do dinheiro do fundo. Nossas pautas sempre foram o combate à corrupção, a transparência, a moralidade e a ética. De repente, você está num partido que tem um Fundo Partidário gigantesco, sem saber como é utilizado. Gostaria de frisar: não estamos dizendo que há alguma irregularidade. Talvez não haja nada de irregular, mas (o uso do dinheiro) precisa ser transparente.

O segundo ponto é que mudaram o estatuto do partido há alguns meses para concentrar poder nas mãos do atual presidente. De novo, não tenho nada contra ele, mas não podemos ter uma regra que mantém o presidente em um cargo perpétuo. Isso é uma postura concentradora de poder. Criaram-se mais de 130 cargos que sempre vão votar no Bivar. Nunca alcançaríamos uma maioria para colocar, por exemplo, o presidente Bolsonaro na presidência do partido ou quem quer que seja.

A questão não é seguir o presidente Bolsonaro. Ele foi eleito sobre uma plataforma que defendemos. Eu defendo muito antes de ele ser candidato a presidente. Para que não haja corrupção dentro do partido, precisamos ter transparência, certeza da lisura. No momento em que não há, criamos um problema.

BRP – A ideia é fundir o Patriotas com outro partido? Há alguma sigla em vista? Ou até mesmo criar uma legenda do zero?

Carla Zambelli – Todas as possibilidades estão na mesa, se formos expulsos ou se sairmos do partido. Tanto ir para outro partido quanto criar um do zero. O importante é termos certeza de que esse novo partido terá democracia nas decisões e transparência no uso dos recursos públicos. (Felipe Goldenberg, especial para o BRP)