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por Vera Magalhães e Marcelo de Moraes

Fala de Guedes sobre os EUA é ‘tiro no pé’

Cassia Miranda

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O tom a mais e o discurso feito pelo ministro da Economia, Paulo Guedes, no “chega para lá” dado nos Estados Unidos em relação à política ambiental brasileira é um “tiro no pé” para o País, que busca convencer o mundo de que é capaz de equilibrar a atividade econômica com desenvolvimento sustentável.

O ministro da Economia, Paulo Guedes. Foto: Dida Sampaio/Estadão

Na avaliação do diplomata Celso Lafer, ex-ministro das Relações Exteriores nos governos Fernando Collor de Mello e Fernando Henrique Cardoso, a declaração feita por Guedes na quinta-feira, 6, compromete ainda mais a credibilidade do País.

“A defesa do meio ambiente é um artigo da Constituição brasileira, não é uma imposição externa. Também a Constituição brasileira coloca entre os princípios que regem as atividades econômicas do Brasil a defesa do meio ambiente. O desenvolvimento sustentável foi consagrado na Rio 92, e, parte de que você precisa compatibilizar as atividades econômicas com padrões sustentáveis de produção e consumo. Portanto, cabia ao ministro Guedes seguir o diz a Constituição, e não comprometer a credibilidade internacional do Brasil. A defesa do desenvolvimento sustentável é um interesse do Brasil, além de ser um interesse de ordem mundial”, avalia o diplomata.

No evento Aspen Security Forum, organizado pelo Aspen Institute, um centro de estudos de Washington, Guedes afirmou que os americanos “desmataram suas florestas” e “mataram seus índios, não miscigenaram”.

Para o pesquisador Oliver Stuenkel, coordenador da pós-graduação em relações internacionais da FGV-SP, a declaração tira Guedes do posto de representante da racionalidade no governo. “Os comentários mostram um total desconhecimento da realidade política dos EUA, fortalecem aqueles que consideram a atuação do governo brasileiro como irresponsável e enfraquecem a narrativa de que Guedes representa a parte racional do governo”, aponta Stuenkel.

A declaração em tom nada diplomático ocorre no mesmo momento em que o Brasil vem sendo pressionado por investidores internacionais e grandes empresas a tocar uma agenda ambiental de enfrentamento ao desmatamento. “Não é um tom que cabe a quem tem a responsabilidade de ser ministro da Economia do Brasil”, completa Lafer.

Stuenkel aponta que a fala de Guedes reforça a crítica à falta de experiência política do ministro.”Esse tipo de comentário é um tiro no pé, só atrapalha. É munição para aqueles que defendem políticas mais duras em relação ao Brasil”, aponta.

O pesquisador completa: “O Brasil, de maneira alguma, ganha com esse tipo de coisa que parte de uma compreensão muito equivocada sobre como funcionam os mercados, já que a preocupação sobre o meio ambiente brasileiro deixou de ser um tema de ONGs e de um pequeno grupo de ambientalistas, mas é uma coisa de Wall Street. Quem mais pressiona o Brasil hoje são os fundos de investimento. É particularmente surpreendente que ele faça esse comentário por que onde isso mais tem impacto é justamente no mercado financeiro”.