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por Marcelo de Moraes

Falta de debates na TV favorece conhecidos e prejudica democracia, dizem especialistas

Alexandra Martins

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O atual déficit de debates televisivos nesta campanha eleitoral tem efeito negativo para os nomes desconhecidos e positivo para aqueles que têm recall de disputas passadas, segundo os estrategistas políticos dos principais candidatos à Prefeitura de São Paulo e cientistas políticos ouvidos pelo BRP. Além do mais, enfraqueceria a democracia, uma vez que reduz o espaço de resposta a críticas e esclarecimentos dos candidatos ao eleitor.

Debate presencial promovido pela Band em São Paulo. Foto: Kelly Fuzaro/Band

Para o cientista político Leonardo Avritzer, da UFMG, esses programas de TV teriam poder de mudar o voto do eleitor decidido sob uma condição. “Os debates nas últimas eleições, especialmente nesse clima de polarização em que vivemos, acabam não mudando a intenção de voto do eleitor. Servem mais, do ponto de vista da intenção de votos, para reforçar a opinião que eles têm a respeito do seu candidato, a não ser que seu candidato tenha uma atuação completamente desastrosa”, afirma.

Foi o que ocorreu com o presidente dos EUA, Donald Trump, que perdeu apoio entre republicanos após o primeiro debate com o adversário Joe Biden (Partido Democrata), ao se manter na via do confronto explícito com seu oponente. “A atuação do Trump foi tão desastrosa que ele perdeu apoio no seu próprio campo. Portanto, os debates têm sim relevância no processo eleitoral”, complementa.

Os debates de TV teriam, por outro lado, o poder de ajudar o eleitor indeciso, diz o professor Oswaldo Amaral, da Unicamp. “Não que os debates ofereçam uma oportunidade para mudança de lado para aqueles que já escolheram candidatos, mas é um momento importante especialmente entre indecisos”, afirma o cientista político.

O presidente do instituto de pesquisa Ideia Big Data, Maurício Moura, avalia que os debates televisivos ainda são “mal equacionados” no Brasil. “Os debates têm audiência baixa e são tarde da noite. As democracias grandes do mundo, na América Latina, na Europa, nos Estados Unidos, são feitos no horário nobre e todo mundo transmite. O Brasil devia se espelhar nas democracias grandes”, diz.

O coordenador da campanha do prefeito Bruno Covas (PSDB), Wilson Pedroso, avalia que, ainda que seu candidato goze do maior tempo de propaganda eleitoral na Capital (3 minutos e 29 segundos), a falta de debate prejudica o tucano.

“Para nós é ruim porque ficamos um ano cuidando de uma pauta única, que era o coronavírus. O debate é um espaço não apenas para as pessoas formarem opinião, mas seria uma oportunidade de o prefeito demonstrar o que foi feito ao longo do último ano, que ficou escondido”, afirmou. Pedroso vê a internet como espaço promissor na próxima disputa municipal. “A internet é um espaço que veio para ficar. Na outra eleição de prefeito, a internet, com a tecnologia 5G, pode ser o principal ativo para as pessoas ouvirem diferentes opiniões de candidatos distintos”.

Para Daniel Braga, estrategista de comunicação da campanha de Joice Hasselmann (PSL), quem perde neste cenário é a democracia. “Eu enxergo isso como um movimento que enfraquece a democracia e que os únicos beneficiados são os que têm mais recall e quem está no poder. A quem interessa isso? A mudança de estratégia é a gente criar a união da equipe de comunicação dos partidos para fazermos os debates independentes”, propõe.

Joice, que tem 1 minuto e 4 segundos de propaganda em rádio e TV, foi responsável pela Justiça retirar do ar um vídeo de campanha de Guilherme Boulos (PSOL), que tem 17 segundos/dia, pelo fato de o ator Wagner Moura aparecer na maior parte do tempo em peça do psolista. A legislação permite que cada apoiador deve aparecer por, no máximo, 25% do tempo total de exibição. Por outro lado, se viu obrigada a retirar do ar um material com memes de personagem da Disney por não ter sido autorizada pela gigante do entretenimento.

Com 1 minuto e 7 segundos, a campanha do petista Jilmar Tatto compensa a falta de debates televisivos com outras fontes de promoção do candidato desconhecido. “Temos que fazer mais corpo a corpo. É ruim não só do ponto de vista das campanhas, mas das democracias. Não posso aceitar que emissoras que têm concessão pública não se sintam comprometidas numa campanha eleitoral a promover o debate. A Bandeirantes cumpriu muito bem. E a senhora Globo, SBT ou Record? Lidam com o assunto como se a TV fosse a casa deles”, criticou o coordenador de comunicação da campanha de Tatto, José Américo.

Até o momento, somente a TV Bandeirantes realizou debate com os candidatos a prefeito. O segundo foi marcado pela TV Cultura para o dia 12, três dias antes do primeiro turno. As emissoras abertas que cancelaram esses programas da grade (Globo, Record, SBT e Rede TV!), assim como as por assinatura (CNN e Globonews), alegaram questões sanitárias em decorrência da pandemia do novo coronavírus.

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