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por Vera Magalhães e Marcelo de Moraes

Faria quer centralizar comunicação do governo e estabelecer trégua com a mídia

Vera Magalhães

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A primeira vez que o deputado federal Fábio Faria (PSL-RN) foi sondado para integrar o ministério de Jair Bolsonaro era para assumir a articulação política do governo. Disse não: apesar de ter excelente trânsito com diferentes grupos no Congresso e no Judiciário, explicou que não lhe atraía a ideia de passar o dia todo conversando com políticos para descascar abacaxis.

O presidente Jair Bolsonaro durante a posse de Favio Faria no Ministério das Comunicações

O presidente Jair Bolsonaro durante a posse de Fábio Faria no Ministério das Comunicações Foto: Gabriela Biló/Estadão

O convite tinha razão de ser. De forma discreta, desde o início do governo, Faria foi se aproximando de Bolsonaro, agindo como algodão entre cristais. Participou de reuniões tensas entre o presidente e o presidente da Câmara, Rodrigo Maia (DEM-RJ), em que tentou apaziguar os ânimos, era chamado por Bolsonaro ao Alvorada para conversar quando a corda com o Legislativo ou o Supremo esticava.

A diferença do jovem deputado em relação ao entorno ideológico do presidente e mesmo os militares era que ele não se furtava a dizer a Bolsonaro quando achava que ele estava errando, sobretudo na estratégia de comunicação e na relação com a imprensa.

Faria agia na contramão do núcleo familiar e ideológico de Bolsonaro, que sempre acha que existe uma conspiração para derrubá-lo: tratava de desarmar essas bombas e dizer que não, Maia, Davi Alcolumbre  (DEM-AP) e Dias Toffoli não tinham um plano para derrubar o governo.

A tensão chegou ao máximo quando congressistas, ministros do STF e mesmo o TSE passaram a fechar o cerco institucional a Bolsonaro, depois de duas semanas de ataques por parte do presidente e dos apoiadores a essas instâncias. A notícia de que o presidente pensava em militarizar a Secom acendeu um sinal vermelho, e Faria foi dizer ao presidente que achava que aquilo seria um erro.

Foi então que, depois de consultas aos próceres do Centrão que passou a ouvir, sobretudo Gilberto Kassab, que preside o partido de Faria, Bolsonaro o chamou para assumir as Comunicações. Ele disse que aceitaria, desde que o ministério fosse recriado e centralizasse a Empresa Brasileira de Comunicação (e que ela passasse a ter um comando profissional), a Secom, os Correios e também desse a linha da comunicação das demais pastas. Bolsonaro topou.

Coincidência ou não, a chegada de Faria no governo apaziguou o presidente, que vinha numa escalada retórica de confronto com todos os demais agentes da República. O novo ministro aconselhou Bolsonaro a parar com os quebra-queixos de improviso na frente do Alvorada, em que muitas vezes criava graves crises já pela manhã, e pediu carta-branca para tentar reconstruir a relação do governo com a imprensa, iniciando um road show com os empresários de telecomunicações e de rádio e com os diretores de redações dos jornais.

Deixou claro, antes de embarcar, que não entraria num governo que ficasse o tempo todo tentando derrubar o sistema, porque o resultado disso seria que o sistema acabaria derrubando o governo. Segundo interlocutores, Bolsonaro ouviu e concordou com o diagnóstico. A decisão de submergir não se deve só aos conselhos de Faria, é claro: ficou evidente que o STF mandou um recado claro ao Executivo ao chancelar, por 10 votos a 1, o poderoso inquérito das fake news, além de todos os outros contra o governo que tramitam na Corte.

Além disso, o TSE deixou de stand-by várias investigações de denúncias eleitorais que poderiam derrubar a chapa Bolsonaro-Mourão, no limite. E, por fim, houve a prisão de Fabrício Queiroz, formando uma tempestade perfeita em que vários fios desencapados poderiam levar a um curto-circuito e fritar o presidente.

Os filhos do presidente

No plano de renovar a comunicação do governo havia um desafio: driblar a influência dos filhos do presidente no governo, sobretudo do vereador Carlos Bolsonaro (Republicanos-RJ). A relação de Faria com os filhos por enquanto vai bem, e Carlos submergiu depois da investigação do Facebook que baniu páginas e perfis bolsonaristas daquela rede e também do Instagram.

Restava a Secom, uma espécie de feudo de Carlos no Planalto. Faria conseguiu levá-la para sua pasta, e fez uma conversa para alinhar os objetivos com o chefe da secretaria, Fabio Wajngarten. O novo ministro fez saber ao agora assessor que não via sentido em um responsável pela relação com a imprensa xingar jornalistas e ameaçar jornais de boicote pelas redes sociais. Deixou claro que não era dessa maneira que pretendia conduzir a relação do governo com a mídia. Por outro lado, prestigiou a habilidade de Wajngarten com toda a parte técnica da comunicação, na qual ele não tem experiência, e o conhecimento que ele tem com as agências de publicidade e as emissoras.

Na nova relação com a mídia, Faria, que é genro do dono do SBT, Silvio Santos, já visitou quase todas as empresas do setor. E a relação com a Globo? Até essa está disposto a tentar pavimentar. Se depender dele, as ameaças de não-renovação da concessão da Globo cessarão, até porque, no Congresso, ninguém acredita que Bolsonaro tenha votos suficientes para cassar de fato a licença da rede. É pura bravata e só ajuda a envenenar os ânimos, disseram ao presidente os pragmáticos recém-chegados ao governo.

A nova estrutura de comunicação também deixou pelo caminho a figura do porta-voz. O general Otavio Rêgo Barros, depois de ser, até ele, alvo dos filhos de Bolsonaro, deixou a função e vai trabalhar na Casa Civil, com o companheiro de patente Braga Netto. Já não estava atuando como porta-voz há meses, a destituição só foi oficializada.

EBC

A próxima cartada de Faria será profissionalizar o comando da EBC, a Empresa Brasileira de Comunicações, que Bolsonaro prometeu na campanha que iria extinguir, mas desistiu no dia seguinte a ser eleito, é claro. Há vários militares nomeados na EBC, e o novo ministro quer mudar esse organograma.

Também quer ter voz na modelagem da privatização dos Correios e do que restou da Telebrás depois do processo de privatização do governo Fernando Henrique Cardoso? Vem aí atrito com a equipe de Paulo Guedes? Se depender do jeitão diplomático do genro de Silvio Santos, não. Mas ele também tem deixado claro que não vai aceitar ser ministro sem tinta na caneta. E, por ora, está se mostrando eficaz na missão para a qual foi designado.