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por Vera Magalhães e Marcelo de Moraes

Fio BRP: 20 ‘revelações’ das mensagens vazadas sobre a Lava Jato

Equipe BR Político

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Conversas vazadas pelo site The Intercept Brasil, que ficaram posteriormente conhecidas como Vaza Jato, mostraram em 2019 os meandros da relação entre procuradores da força-tarefa da Lava Jato, principalmente do coordenador da operação em Curitiba, Deltan Dallagnol, com o ex-juiz Sérgio Moro. Durante o ano, o vazamento deu origem a 20 “revelações” principais, baseadas nas supostas mensagens. Siga no fio abaixo:

Deltan Dallagnol e Sérgio Moro em evento Foto: Hélvio Romero/Estadão#1: Diálogos de supostas conversas pelo aplicativo Telegram revelam que procuradores da Lava Jato teriam discutido estratégias para impedir ou diminuir a repercussão de uma possível entrevista de Lula à Folha, autorizada pelo ministro do STF Ricardo Lewandowski. Nos diálogos, os procuradores teriam afirmado que a entrevista poderia favorecer a campanha do PT. Depois que o ministro Luiz Fux proibiu a entrevista acatando um pedido do partido Novo, procuradores, incluindo Dallagnol teriam comemorado em mensagens. 

#2: Conversas entre Dallagnol e outros procuradores na véspera da apresentação da denúncia contra Lula na Lava Jato no caso do triplex do Guarujá sugerem que o procurador não tinha certeza sobre se o apartamento realmente era ligado a caso de propinas na Petrobrás. O argumento era central na denúncia e foi o que fez com que o processo sobre o apartamento saísse do Ministério Público de São Paulo, que investigava o caso Bancoop e fosse transferido para Curitiba.

#3: Em conversas com Dallagnol, o então juiz Sérgio Moro, que julgava em primeira instância os processos ligados à Lava Jato em Curitiba, teria sugerido estratégias ao procurador para a apresentação das investigações que o procurador faria. O ex-juiz ainda teria perguntado ao membro do MPF se não seria muito tempo sem operações. Na ocasião, a força-tarefa da Polícia Federal estava há um mês sem ir às ruas. Segundo as conversas divulgadas, Moro teria passado uma pista ao procurador sobre o caso de Lula. 

#4: Em trecho divulgado do que seriam conversas privadas entre Sérgio Moro e o então procurador da República Carlos Fernando dos Santos Lima, o ex-juiz teria pedido aos procuradores da Lava Jato uma nota à imprensa para rebater a defesa de Lula, após o depoimento do ex-presidente no caso do triplex do Guarujá, apontando contradições em seu depoimento. “Talvez vcs devessem amanhã editar uma nota esclarecendo as contradições do depoimento com o resto das provas ou com o depoimento anterior dele” “Por que a Defesa já fez o showzinho dela”, teria dito.

#5: Depois da veiculação de uma notícia sobre suspeitas contra Fernando Henrique Cardoso, em abril de 2017, pelo Jornal Nacional, em uma suposta conversa entre Moro e Dallagnol, o juiz teria perguntado se as suspeitas contra o ex-presidente eram “sérias” e se o caso não estaria prescrito, por se tratar de fato ocorrido em 1996. O procurador teria respondido acreditar que o braço da força-tarefa da Lava Jato em Brasília não havia analisado a prescrição e o enviou ao Ministério Público Federal de São Paulo para “passar recado de imparcialidade”. Moro teria respondido que a ação seria questionável, pois “melindra alguém cujo apoio é importante”.

#6: Um dia antes do anúncio de Moro para o Ministério da Justiça do então futuro governo Bolsonaro, procuradores de Curitiba afirmaram em suposto grupo de mensagens que, se concretizada, a ida de Moro para o governo seria negativa à Lava Jato. No dia seguinte, procuradores do MPF de diversos Estados afirmaram em suposta troca de mensagens que Moro não seria confiável e sugerido que o juiz atuava além de suas determinações. Um deles teria afirmado: “Cara, eu não confio no Moro, não. Em breve vamos nos receber cota de delegado mandando acrescentar fatos à denúncia. E, se não cumprirmos, o próprio juiz resolve. Rs.”

#7: Em agosto de 2017 Moro teria sugerido a Dallagnol que vazasse uma delação da Odebrecht sobre propinas na Venezuela. As informações contidas na delação afetariam Nicolás Maduro em momento de tensão em seu governo. Deltan debateu sobre o vazamento em grupo com procuradores. Em outubro, a ex-procuradora-geral venezuelana, Luísa Ortega Díaz, na época destituída de seu cargo e refugiada no Brasil, publicou em seu site vídeos com trechos de depoimentos do ex-diretor da Odebrecht na Venezuela Euzenando Azevedo, nos quais ele admite ter repassado 35 milhões de dólares da empreiteira à campanha eleitoral de Maduro.

#8: Em supostas mensagens entre Dallagnol e o procurador da Lava Jato Roberson Pozzobon, os dois teriam cogitado formar uma empresa para realizar congressos e eventos em que não apareceriam formalmente como sócios, para evitar questionamentos legais e críticas. “É um bom jeito de aproveitar nosso networking e visibilidade”, teria dito Dallagnol à sua esposa em conversa. Ao grupo sobre o assunto no chat, Deltan teria escrito: “se fizéssemos algo sem fins lucrativos e pagássemos valores altos de palestras pra nós, escaparíamos das críticas”.

#9: Em mensagens a procuradores, Dallagnol teria afirmado que o senador Flávio Bolsonaro “certamente” seria implicado em esquema de corrupção na Alerj, hoje conhecido como a investigação das supostas “rachadinhas” em seu gabinete. Em relação ao caso, o procurador teria demonstrado, em dezembro de 2018, preocupação de que Moro pudesse não querer que as investigações prosseguissem por pressões políticas.

#10: Em março de 2018, Dallagnol havia sido pago para dar uma palestra para uma empresa investigada por corrupção pela Lava Jato, a Neoway. Na época, o procurador teria mencionado a empresa a outros procuradores com a intenção de comprar produtos de tecnologia para uso na Lava Jato. Deltan chegou a gravar um vídeo para a empresa, enaltecendo o uso de tecnologia em investigações. Ele teria descoberto que a empresa estava envolvida nas investigações em julho de 2018, porém apenas enviou um ofício justificando sua participação em atividades da empresa em junho de 2019.

#11: Dallagnol, que participou de um evento com representantes de bancos e investidores organizado pela XP Investimentos em junho de 2018, teria ponderado em supostas conversas com outros procuradores, o risco da participação no evento para suas imagens. “Achamos que há risco sim, mas que o risco tá bem pago rs”, teria escrito o procurador Roberson Pozzobon em fevereiro de 2018. E adicionado: “Mas de fato é nessa questao dos bancos que a coisa é mais sensível mesmo. Vamos conversar com calma depois”.

#12: O coordenador da Lava Jato em Curitiba teria incentivado procuradores a investigar o atual presidente do STF, ministro Dias Toffoli, no âmbito da Lava Jato em 2016, alguns meses depois de duas decisões de Toffoli no STF terem sido contrárias ao defendido pela força-tarefa. Dallagnol teria pedido informações sobre as finanças pessoais de Toffoli e sua mulher e evidências que ligassem à OAS, envolvida com a corrupção na Petrobrás.

#13: Depois da morte do ministro do STF Teori Zavascki, Deltan teria, em supostas conversas com lideranças e representantes de grupos como o Vem Pra Rua e o Instituto Mude – Chega de Corrupção, sugerido que os grupos fizessem pressão para que quem assumisse a relatoria dos processos da Lava Jato no Tribunal não fossem Dias Toffoli, Gilmar Mendes, Ricardo Lewandowski e Marco Aurélio Mello. Em supostas conversas com outros procuradores, teria afirmado que Edson Fachin seria uma boa opção, mas os colegas teriam dito que Luís Roberto Barroso seria o ideal para assumir. 

#14: Deltan e outros procuradores de Curitiba teriam pedido, por meio de supostas mensagens, ao então chefe da área de inteligência da Receita em Curitiba, Roberto Leonel, informações sigilosas informalmente, em alguns casos, de pessoas sobre as quais não havia investigação aberta.

#15: Em março de 2019, um outdoor em apoio aos integrantes da força-tarefa da Lava Jato apareceu na região metropolitana de Curitiba. Supostas mensagens entre procuradores indicam que os integrantes da força-tarefa receberam a informação de que o procurador Diogo Castor de Mattos havia financiado o outdoor e de que ele havia se afastado da força-tarefa dias antes de ser denunciado com um atestado médico, sabendo da iminência de seu afastamento devido ao financiamento do outdoor, e decidiram não divulgar oficialmente as razões do afastamento de Mattos.

#16: Supostas mensagens mostram que, apesar de Deltan ter negado publicamente que a força-tarefa vazasse documentos relacionados às investigações, integrantes vazaram investigações para que investigados acreditassem que “eram inevitáveis e incentivar a colaboração”. A afirmação teria sido feita pelo procurador da Lava Jato Carlos Fernando Santos Lima em conversa com outro procurador.

#17: Em um suposto chat consigo mesmo, Deltan teria considerado opções para o seu futuro. Uma delas seria concorrer a uma vaga no Senado. Teria escrito que “seria facilmente eleito” caso concorresse, mas ponderou que pudesse ser “risco para a Lava Jato porque muitas pessoas farão uma leitura retrospectiva com uma interpretação de que a atuação desde sempre foi política”. A sua segunda opção seria prosseguir na carreira no Ministério Público Federal e a terceira se afastar da carreira de procurador e “lutar pela renovação enquanto cidadão, pedindo exoneração”.

#18: Supostas mensagens entre procuradores do MPF mostram que eles teriam cogitado um pedido que autorizasse a retenção do passaporte da filha do empresário luso-brasileiro Raul Schmidt, apontado como operador de propinas para ex-dirigentes da Petrobrás, para pressionar o empresário a se entregar. Em mensagem, o procurador Diogo Castor de Mattos teria dito que seria um “elemento de pressão”. O MPF fez o pedido em uma primeira ocasião em que foi negado por Moro. Em uma segunda, porém, em maio de 2018, o então juiz autorizou a retenção.

#19: Procuradores da Lava Jato no Paraná teriam programado a divulgação da denúncia contra Lula no caso do sítio em Atibaia para momento que a acusação poderia distrair a população e a imprensa de críticas que atingiam a equipe do então procurador-geral da República, Rodrigo Janot, segundo supostas mensagens trocadas por procuradores. Na época, áudios de Joesley Batista haviam sido divulgados. Carlos Fernando dos Santos Lima teria dito: “Quem sabe não seja hora de soltar a denúncia do Lula. Assim criamos alguma coisa até o laudo” e “Vamos criar distração e mostrar serviço”. 

#20: Sérgio Moro teria ordenado busca e apreensão na casa de suspeitos na Lava Jato sem indicação do MPF e orientado os procuradores no planejamento da operação. O delegado da PF alocado na Lava Jato teria escrito: “Russo deferiu uma busca que não foi pedida por ninguém…hahahah. Kkkkk” em grupo, se referindo a Moro. “Como assim?!”, teria respondido a delegada da PF na Lava Jato Renata Rodrigues ao que Flores respondeu: “Normal… deixa quieto…Vou ajeitar…kkkk”./ Roberta Vassalo, especial para o BRPolítico