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por Vera Magalhães e Marcelo de Moraes

Fio BRP: Entenda a batalha dos nove dias do PSL

Milibi Figueiredo

A crise fratricida do PSL teve seu capítulo mais atribulado nesta quinta-feira, 17. O presidente da República sofreu a primeira derrota na tentativa frustrada de transformar seu filho, o deputado Eduardo Bolsonaro (SP), líder do partido na Câmara dos Deputados no lugar do delegado Waldir (GO). Por decisão da Mesa Diretora, Waldir permaneceu.

Em crise: Jair Bolsonaro, presidente da República, e Luciano Bivar, presidente nacional do PSL

Jair Bolsonaro e Luciano Bivar. Foto: Adriano Machado/Reuters

Mas a cizânia começou dez dias atrás com o choque entre Luciano Bivar, presidente nacional do PSL, e Jair Bolsonaro pelo controle da distribuição dos fundos públicos milionários da sigla. Relembre os principais capítulos da série tragicômica. Siga o fio:

8 de outubro – O dia D

Na porta do Palácio da Alvorada, o estudante Diogo Araújo, que se apresentou como pré-candidato a vereador no Recife pelo PSL, grava um vídeo com o presidente da República. “Eu, Bolsonaro e (Luciano) Bivar juntos por um novo Recife”, disse o garoto de 19 anos. Bolsonaro fica insatisfeito com a gravação e pede que não seja divulgada. “O cara (Bivar) está queimado para caramba lá. Vai queimar o meu filme também. Esquece esse cara, esquece o partido”, prosseguiu.

O apoiador grava novo vídeo seguindo os pedidos do presidente, mas o momento também é capturado por dois militares youtubers que acompanham as paradinhas no Alvorada. O major da Aeronáutica Emílio Kerber e o capitão da reserva da Marinha Winston Lima transmitem a cena ao vivo. O presidente da República se abstém de comentar sua declaração, mas aliados entendem como disposição para mudança de partido.

O senador Major Olímpio (SP) disse que a fala do presidente o deixou “perplexo” e que “é mais fácil resolver o desacordo que ele sair”. Carlos Bolsonaro (PSC), vereador do Rio, usou o Twitter para rebater. “Fico estarrecido da maneira como este senhor trata o presidente hoje! Ninguém é imune à críticas, mas meu Deus! É surreal!”.

9 de outubro – A possível debandada para outra tropa

O líder do Podemos na Câmara, deputado José Nelto (GO), afirma, via Twitter, que sete parlamentares do PSL iriam migrar para seu partido.

O presidente nacional do PSL declara que, na sua avaliação, Bolsonaro já havia decidido desembarcar da legenda. “Quando ele diz a um estranho para esquecer o PSL, mostra que ele mesmo já esqueceu”, afirmou.

Bolsonaro desconversa sobre crise e afirma que permanece na sigla. “Briga de marido e mulher, de vez em quando acontece”, disse. Não deixa de criticar a atuação da legenda – “estagnada”, segundo ele.

Apontada por bivaristas como um pivô da cisão, a advogada Karina Kufa avalia a permanência de Bolsonaro como “insustentável”, já que a sigla não estaria disposta a votação para alteração do estatuto e eleição dos dirigentes. Karina defendia a permanência de Bolsonaro antes de seu contrato com o partido ser rescindido, após início público dos conflitos.

10 de outubro – O recrudescimento da retórica

Os deputados federais Eduardo Bolsonaro (SP) e Júnior Bozzella (SP), do lado de Bivar, se digladiam publicamente. Em entrevista , Bozzella, que não esconde pretensões de ser prefeito de Santos (SP), afirma que, quem ataca o partido, está sujeito à punição. Sem meias palavras, Eduardo retruca que o colega falou “merda” para imprensa.

Pesselistas ligados a Bivar têm perspectiva de desfiliação de 15 parlamentares que criticaram a sigla, o que não ocorre.

Bolsonaro se reúne com aliados e pede cuidado, para que não percam mandatos por infidelidade partidária. Para solucionar esse imbróglio e conseguir levar recursos do fundo partidário com a migração do PSL, o presidente considera fusão de legendas. 

11 de outubro –  A batalha das auditorias – Parte I

Jair Bolsonaro incentiva aliados a pedirem auditoria para verificar como o fundo partidário do PSL foi utilizado. A ação é tomada por conta da legislação eleitoral, que mantém os recursos com a sigla mesmo com a saída dos eleitos.

Bivar diz aceitar a verificação e insinua que o maior gasto da legenda foi com a advogada Karina Kufa, aliada de Bolsonaro.

12 de outubro – A batalha das auditorias – Parte II

Bolsonaro pede a relação completa das contas partidárias a Bivar. Em resposta, o comando do PSL afirma que vai pedir auditoria dos gastos da campanha presidencial do ano passado.

Bivar avisa a parlamentares que se posicionaram a favor do presidente da República não serão submetidos ao Conselho de Ética do partido.

13 de outubro – Campeonato de UFC 

Major Olímpio x Carlos Bolsonaro – O filho do presidente se irrita com Olímpio, por ter chamado ele e os irmãos Eduardo e Flávio de “príncipes”, em entrevista. No Twitter, Carlos retruca e diz que o senador é “um bobo da corte”

Filipe Barros e Bia Kicis x Joice Hasselmann – Então líder do governo no Congresso, Joice classifica carta de apoio a Jair Bolsonaro assinada por colegas de partido como “malandragem”. A relação da parlamentar com o presidente já havia rachado por algumas razões – sua proximidade com o governador João Doria, por exemplo.

Em vídeo publicado nas redes sociais, os deputados Bia Kicis e Filipe Barros afirmam que Joice é “desinformada” e “usa artifícios da esquerda”. 

14 de outubro – O elemento externo

Líderes do Centrão falam em aproveitar a implosão para atrair, para seu lado, os partidários de Bivar. A ideia é alinhar esse grupo aos partidos do Centrão e isolar o grupo bolsonarista.

Jair Bolsonaro se reúne com Karina Kufa e Admar Gonzaga, ex-ministro do TSE com quem procura aconselhamento sobre como tirar seus aliados do PSL.

A legenda ensaia pedir que a ala bolsonarista abra mão dos fundos eleitoral e partidário antes de se desfiliarem, segundo o deputado Júnior Bozzella. O motivo seria a posição contrária que parte deles sustenta no discurso em relação aos fundos públicos políticos.

15 de outubro – Tática de campo

Reunião para tratar da expulsão de deputados aliados de Bolsonaro do PSL é cancelada pelo deputado Delegado Waldir (GO). “O seu adversário você mantém pertinho de você. Não mantém longe. Faz parte da guerra”, afirma o líder do partido na Câmara.

Por coincidência, a Polícia Federal realiza busca e apreensão nos endereços de Luciano Bivar. Partidários do presidente nacional do PSL sugerem atuação de Bolsonaro na operação, mas o pedido da PF para realizar as buscas data de 21 de agosto – bem anterior ao 8 de outubro que originou a cisão.

Major Olímpio e Carlos Bolsonaro brigam novamente nas redes sociais. Desta vez, o motivo é a CPMI das Fake News.

16 de outubro  – Antes da tempestade

Bolsonaro tenta pôr panos quentes na crise e diz que está tudo certo com a legenda. “O Brasil tá acima do nosso partido. Nosso partido é o Brasil”, declara.

17 de outubro – O ápice

Num processo aos tropeços, com áudio vazado em que pede assinatura em prol de seu filho Eduardo, Jair Bolsonaro sofre derrota e vê a Mesa Diretora da Câmara manter o Delegado Waldir na liderança do partido na Câmara. Em resposta à articulação para sua saída, o deputado disse que ia  “implodir o presidente”, durante reunião interna, chamando o presidente da República de “vagabundo”.

Por ter assinado lista pela manutenção do delegado, Joice Hasselmann (SP) foi tirada por Bolsonaro da liderança do governo no Congresso. Outras duas destituições – Flávio e Eduardo Bolsonaro – dos diretórios no Rio de Janeiro e em São Paulo, respectivamente, vêm a público.

Horas após figurar nas principais manchetes dos jornais do País, Waldir recua e diz: “Somos que nem mulher traída. Apanha, mas volta”.