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por Marcelo de Moraes

FNP: ‘Estamos orientando os prefeitos para um cenário mais grave em janeiro’

Cassia Miranda

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Presidente da Frente Nacional de Prefeitos (FNP), Jonas Donizette (PSB), encerra este ano seu mandato de oito anos à frente da prefeitura de Campinas. De saída, ele afirma estar deixando a casa o mais organizada possível para quando for iniciada a vacinação contra a covid-19, mesma orientação que repassa aos 406 prefeitos representados pela frente.

“Estamos orientando os prefeitos a se prepararem para um cenário mais grave em janeiro”, afirma. Nesta semana, ele assinou protocolo de intenções com o Instituto Butantan para facilitar às médias e grandes cidades a aquisição da vacina Coronavac, produzida em parceria com o laboratório Sinovac.

Jonas Donizette fica até maio na presidência da FNP. Foto: Carlos Bassan/Prefeitura de Campinas

Mesmo atento a isso nisso, Donizette diz que a FNP não tem sugerido aos municípios sobre eventuais revisões no cronograma já estabelecido de volta presencial às aulas. “A volta (antes da vacina) não só é possível como é necessária, é claro, com todos os cuidados”, defende.

Também de olho na economia, ele aposta na construção civil como principal setor capaz de reaquecer a atividade econômica prejudicada pela pandemia.

Em conversa com o BRPolítico, Donizette, que fica na presidência da FNP até maio, fala sobre os principais obstáculos que os mandatários terão de enfrentar logo nas primeiras semanas de 2021, mas também no pós-pandemia.

Leia abaixo os principais pontos da conversa:

Vacina

  • “Temos feito um trabalho intenso em parceria com o Conselho Nacional de Secretarias Municipais de Saúde (Conasems), eles têm um assento no Ministério da Saúde e são um parceiro importante da FNP para mostrar a realidade dos municípios, porque toda essa discussão vai se afunilar na ponta. Onde as pessoas vão tomar a vacina? Na cidade onde moram. Então, é para isso que temos chamado a atenção e procurado alertar o ministério para a necessidade de suporte a essas cidades. Principalmente os municípios que a frente nacional representa, que são onde vai começar a acontecer a coisa, os planejamentos, as distribuições. Então, nós pressionamos por uma comunicação maior, essa etapa, acho que está sendo vencida. Trabalhamos em duas frentes, a gente não tem só cobrado o governo federal, nós temos alertado as cidades para que deixem tudo preparado, para que não exista nenhuma intercorrência, quando chegar a vacina, que dificulte a aplicação.”
  • “Temos um bom canal de relação com o ministério. Nos últimos dias houver dificuldade, mas eu acho que se deveu muito mais por essa questão dos desencontros sobre a vacina, coisas que a gente não gostaria que tivesse acontecido, mas aconteceu. A gente teve um bom relacionamento até o início desse processo.”
  • “Nós estamos trabalhando em um cenário de muita instabilidade. O meu secretário de Saúde acha que nós teremos uma intensificação da pandemia (em janeiro), mas que não voltará ao quadro que foi em agosto. E aí, a orientação é apara os prefeitos se prepararem. Por exemplo, eu, novamente suspendi as cirurgias eletivas aqui na minha rede pública, reverti uma UPA para fazer atendimento covid. Então, nós estamos orientando os prefeitos a se prepararem para um cenário mais grave em janeiro. Porém, a nossa visão é de que não deve ser algo como foi em julho e agosto.”

Volta às aulas

  • “Tenho orientado os prefeitos a deixarem todas as compras feitas ou, se não tiver dinheiro, pelos menos deixar todos os processos já elaborados para quem vai entrar poder fazer essas compras que garantam a retomada, porque as escolas vão viver uma nova realidade, inclusive com a adaptação para os alunos que não conseguiram acompanhar devidamente durante a pandemia.”
  • “Dificilmente ocorrerá um movimento de volta total já no início do ano. Isso vai ter de ser feito de forma parcial. Nós temos um problema na rede em relação aos professores e professoras que têm comorbidades ou que já têm uma certa idade, o que pode acarretar num problema de pessoal, que deverá ser avaliado em cada município.”
  • “Não temos orientado nesse sentido (de rever o calendário de volta presencial às aulas). Até mesmo porque a aula é uma necessidade para as crianças. Um ano você adapta, mas se isso começa a ficar mais prolongado, começa a trazer problemas bem sérios. Quando a gente fala sobre as prefeituras, a coisa se complica ainda mais porque nós somos responsáveis pela educação infantil. E na creche, o comportamento da criança é todo sensorial. Tudo o que ela pega, coloca na boca, quer compartilhar com o amiguinho. Então, vai ser um grande desafio, que vai exigir muito diálogo com os pais. Eu acho que tem de ter um início incipiente, uma coisa paulatina, talvez em dias alternados para depois, aos poucos, ir retornando à normalidade. A volta (antes da vacina) não só é possível como é necessária, é claro, com todos os cuidados.”

Economia

  • “O primeiro desafio é garantir a vacinação, para que as coisas possam retornar à normalidade. Mas também se preocupar com a atividade econômica. Neste sentido, eu acho que a construção civil é o principal vetor. O setor está em alta, não diminuiu durante a pandemia e é algo que as prefeituras podem influenciar, pois, não depende só do governo estadual e federal. Principalmente em grandes cidades. Esse pode ser o motor para a retomada do crescimento.”

Fila na saúde

  • “O Conasems fez um levantamento de que neste ano o Brasil deixou de realizar cerca de 1 bilhão de procedimentos médicos por causa da pandemia. Porque os outros problemas, como os de pressão alta e diabetes, eles continuam. Sei que, neste momento, a prioridade é a pandemia, mas o Ministério da Saúde já tem de começar a apensar num plano de apoio aos municípios para recuperar esse tempo perdido e tentar organizar essa longa fila.”

Transporte

  • “O presidente Bolsonaro vetou uma ajuda de R$ 4 bilhões para o setor do transporte. No ano que vem, se não tiver uma atenção emergencial, as grandes cidades vão ter sérios problemas em relação à paralisação do transporte. Esse é um setor que se sustenta com o número de passageiros transportados. Com a pandemia, caiu em média 50% o número de passageiros, num processo que já vinha tendo problemas. A pandemia foi mais um, somado à crise econômica e o fenômeno dos aplicativos, que desequilibrou o sistema. O transporte público bom e de qualidade tem custo. A discussão é quem vai pagar e como vai se pagar essa conta. Esse é um debate pós-pandemia que vai ser muito forte.”

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