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por Vera Magalhães e Marcelo de Moraes

França herda votos de bolsonaristas anti-Doria

Vera Magalhães

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A equipe de Bruno Covas (PSDB) em São Paulo traçou ao longo da curta campanha dois cenários para um segundo turno em São Paulo: o prefeito teria relativa facilidade de passar ao segundo turno, e, na segunda etapa, poderia enfrentar Celso Russomanno (Republicanos) ou Guilherme Boulos (PSOL).

Márcio França na convenção do PSB que oficializou sua candidatura

Márcio França na convenção do PSB que oficializou sua candidatura Foto: Tiago Queiroz/Estadão

Para cada uma das possibilidades havia clareza do discurso a adotar e do eleitorado a buscar para fechar os 50% mais um dos votos válidos dos paulistanos. Não estava no radar a possibilidade de que o oponente fosse Márcio França (PSB), e esse cenário, que começa a aparecer como factível nas pesquisas desde a sexta-feira da semana passada, no Ibope/Estadão, traz um grau aos tucanos um déjà-vu preocupante de 2018.

França apostou em fazer da disputa municipal uma continuação da estadual de 2018. Fez isso por uma razão clara: teve 3,93 milhões de votos na capital paulista (58% dos válidos) no segundo turno, o que significou um passaporte para a eleição atual, para a qual, inclusive, transferiu seu domicílio eleitoral.

Dois anos depois, ele veio com o mesmo discurso: o do anti-Doria. O fato de ter passado meses estacionado num patamar de menos de 10% das intenções de votos fazia crer que a estratégia era menos eficaz, uma vez que o governador não é candidato desta vez, e que o recall não se sustentaria.

Mas o crescimento de França nas pesquisas, empatando tecnicamente com Boulos, mostra que talvez a avaliação (feita inclusive por mim em questionamento ao pessebista na sabatina do Estadão) tenha sido prematura. Pesquisas qualitativas feitas pelas campanhas mostram que, com o desgaste de Russomanno, França tem sido herdeiro dos votos de uma parcela do eleitorado bolsonarista que está “pistola” com o governador João Doria Jr., alvejado pela retórica do presidente.

Toda a narrativa de que Doria seria promotor da vacina chinesa e gostaria de fazer paulistas (e paulistanos, portanto) de “cobaias” colou junto a uma franja bolsonarista. Sim, mesmo com o ex-deputado sendo candidato do partido “socialista”. Isso não é verificável nas pesquisas quantitativas, que não têm apresentado o detalhamento do voto, mas aparece em grupos de pesquisas quali.

Enfrentar França é uma preocupação para o QG tucano. Significa trazer Doria de volta ao centro da campanha, algo que Bruno Covas conseguiu evitar desde que construiu uma imagem própria, muito em razão da doença que enfrentou.

O abandono da prefeitura voltaria como um fantasma a rondar Covas, e se somaria à dúvida que adversários já começam a plantar, com maior ou menor virulência, quanto às condições de saúde do tucano para tocar o mandato.

A preferência no PSDB ainda é um confronto com Russomanno ou Boulos (o PT também seria bem-vindo, mas as chances de Jilmar Tatto são consideradas mais remotas pelos aliados do prefeito).